quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLVIII)

A noite de 15 de dezembro de 1968 era uma coisa viva e hostil. O ar, antes carregado do calor úmido do verão, parecia agora gelado pela nova lei que pesava sobre a cidade. Ana caminhava com uma determinação que tentava disfarçar de despreocupação. O vestido curto, os mocassins, o rabo de cavalo balançando. Mas seus olhos varriam cada sombra.

Seu destino era o Box 777. Conforme se aproximava, viu o Opala cor de creme, imóvel, apenas um fio de fumaça de cigarro traindo a presença dentro.

Foi então, no último quarteirão deserto antes do cais, que um cheiro forte e doce de rosas invadiu suas narinas. Um perfume denso, totalmente fora de lugar naquele ar salgado e podre. Ela virou a cabeça, instintivamente.

Pelo canto do olho, na penumbra de um portal arruinado, viu um vulto. O vestido vermelho e branco, o cabelo preto enrolado em um coque perfeito da virada do século. Era Bárbara dos Prazeres, a Bruxa do Arco do Teles, tão nítida quanto na primeira noite. Seus lábios não se moveram, mas uma voz suave, clara e maternal ecoou diretamente dentro da mente de Ana, sobrepondo-se ao ruído da cidade:

"Não tenha medo, eu estarei contigo."

A visão durou um piscar de olhos. Quando Ana piscou, o portal estava vazio. Mas o cheiro de rosas persistiu, envolvendo-a como um véu protetor e sinistro. O coração acelerou, mas não de pânico — de um reconhecimento profundo. Era ela: Maria Navalha: mas o aviso não era de segurança, era de despedida.

Ela entrou no Opala. O abraço com Rafael foi longo, desesperado, carregado de tudo o que não poderia mais ser dito. Quando ele começou a falar, sua voz era urgente:

— Ana, vocês têm que sumir. Estão no seu encalço…

Foi quando os faróis altos cortaram a escuridão atrás deles, iluminando o interior do carro como um holofote. Uma viatura da polícia parou a poucos metros, bloqueando a saída. As portas se abriram. Quatro policiais desceram, movimentos rápidos e profissionais. Não eram homens comuns; eram agentes de uma operação suja. Lanternas de mão cegaram Ana e Rafael. As pistolas já estavam desembainhadas.

Um deles, ao se aproximar e reconhecer o rosto iluminado pela luz interna, não hesitou. Sua ordem foi um sussurro gutural: "Traidor."

O primeiro disparo foi um estampido seco que explodiu o silêncio do cais. Atingiu Rafael em cheio na testa. O corpo dele sacudiu violentamente para trás, um jorro escuro salpicando o pára-brisa, o couro do banco e o rosto de Ana.

O grito dela não foi um som humano; foi o rasgar do próprio ar. Um grito dilacerado, misturado ao sangue quente do irmão que agora manchava seu vestido, sua pele, sua vida.

Ela nem viu o segundo policial se aproximar do seu lado da janela. O segundo disparo entrou pelo lado esquerdo do seu peito, com um impacto surdo que arrancou o fôlego e toda a força do seu corpo. Não houve mais dor, apenas um desfalecimento súbito, como se o mundo desligasse. Ela caiu para o lado, contra a janela fria, a visão escurecendo rapidamente, o rosto ainda voltado para o irmão morto. O cheiro de rosas, inexplicavelmente, se misturava ao de pólvora e sangue.

A algumas dezenas de metros, escondidos atrás de uma pilha de dormentes, Laura e Lucas assistiram à cena. Laura não conseguiu se conter. Um grito gutural, "NÃO!!!", escapou-lhe dos lábios antes que Lucas pudesse tapar sua boca.

Foi o suficiente. Dois guardas que já estavam posicionados em flanco, esperando por qualquer reação, surgiram das sombras atrás deles. Não houve luta. Duas coronhadas precisas e brutais atingiram as nucas de Laura e Lucas. Seus corpos caíram, moles, no chão de cascalho. Foram rapidamente arrastados e jogados no porta-malas de uma Variant azul que surgiu de uma rua lateral. O carro desapareceu na noite.

Carlos e Paulo, vindo pelo Caju, ouviram os tiros e o grito de Laura. A visão da viatura e dos corpos sendo arrastados os paralisou por um segundo de horror. Instinto de sobrevivência falou mais alto: tinham que avisar os outros, tinham que fugir. Viraram-se e correram desesperadamente em direção à Lapa.

Não conseguiram nem 500 metros. De duas ruas laterais, mais duas viaturas surgiram, cortando seu caminho. Homens saltaram, armas em punho. A luta foi breve e brutal. Foram amarrados, amordaçados com panos ásperos e jogados no fundo de uma das viaturas.

O carro não seguiu para um quartel. Dirigiu-se a um ponto escuro e abandonado do cais, longe do Box 777. Lá, sob as estrelas indiferentes de dezembro, Carlos e Paulo, ainda conscientes, com os olhos arregalados de terror, foram arrastados para a beirada. Um empurrão seco, seguido de outro. Dois splash abafados se perderam no som das ondas batendo contra os pilares de madeira podre. As águas escuras da Baía de Guanabara os engoliram, levando consigo o dossiê que carregavam na memória e a história que juraram contar.

A Variant azul misteriosamente pegou fogo em frente ao cemitério do Caju. Quem visse as centelhas subindo para o céu jamais poderia imaginar que elas carregavam em si o amor de dois jovens que pouco tempo tiveram para vivê-lo.

Dentro do Opala cor de creme, o cheiro de rosas persistia, um último aroma de um mundo que tentara, em vão, proteger seus escolhidos. O sangue de Ana e Rafael escorria lentamente, unindo-se no couro do banco. A promessa de Maria Navalha ecoava no silêncio mortal: "Não tenha medo, eu estarei contigo."

Agora, eles estavam todos juntos. No silêncio, no sangue e na eternidade que se anunciava: Ana, Rafael, Laura, Lucas, Paulo e Carlos, Maria Navalha, Zé Pilintra, Bárbara dos Prazeres. O Arquivo das Sombras fora fechado a tiros, consumido no fogo e afogado na baía. A resistência, naquela noite, fora silenciada. Os anos de chumbo começavam, de fato, com o estrondo de pistolas e o silêncio profundo das águas escuras.

À meia-noite de 16 de dezembro de 1968, um relógio em algum lugar da Lapa badalou doze vezes. O som ecoou no sobrado vazio do Correio Matutino como um dobre de finados.

Madame Satã, sentada em sua cadeira de sempre no canto escuro da redação, sentiu uma pontada aguda e profunda no peito. Não era física; era uma facada de gelo na alma, um rompimento brutal de um fio que ela nem sabia que ainda a prendia a algo tão frágil quanto a esperança. Uma conexão, forte e quente, que havia se formado com aqueles jovens estranhos e corajosos, partiu-se.

De seu olho direito, aquele que havia visto tantas violências e misérias, rolou uma única lágrima. Pesada, lenta, carregada de séculos de dor acumulada. Escorreu pela vala profunda de sua ruga até despencar do queixo, manchando o velho roupão.

Ela não precisou de confirmação. Sabia. No silêncio da cidade sob lei marcial, o destino dos cinco chegara até ela como um eco final.

Levantou-se, um monumento de dor e decisão. Suas sandálias ecoaram no assoalho enquanto descia para o porão. Lá, Zé Lopes ainda escutava o chiado estático do rádio, Márcio verificava as últimas armas, e Alice enrolava um cigarro com mãos trêmulas. Todos olharam para ela. Viram o rosto transformado, a lágrima seca no caminho.

Sem uma palavra, Madame Satã pegou uma garrafa de pinga de cana, da forte, de um engradado no canto. Encheu quatro copos de dedo sujos e os distribuiu. Sua mão não tremia.

— É o fim — declarou, sua voz um baixo rouco que parecia vir das fundações do mundo.

Ela ergueu seu copo, olhou para o líquido âmbar, e então derramou um pouco no chão de terra batida. Uma libação para os que já haviam partido. Para os mortos da noite. Para Ana, Rafael, Laura, Lucas, Carlos, Paulo.

Depois, levantou o que restava e bebeu de um só gole, ardente, como engolindo fogo.

O álcool queimou, mas a dor não se dissipou. Ela a transformou em força. Com um ímpeto súbito, jogou o copo contra a parede, onde ele se estilhaçou. E então, com toda a força de uma dor que não podia ser contida, explicada ou perdoada, ela ergueu os braços para o teto baixo e rugiu, um grito que era desafio, despedida e invocação:

— LAROYÊ!

O grito sacudiu o porão, um chamado aos orixás, aos guias, a todas as forças das ruas e dos umbrais. Alice deixou escapar um soluço abafado, cobrindo o rosto com as mãos. Márcio e Zé Lopes baixaram a cabeça em respeito profundo, um gesto de soldados reconhecendo a queda de seus comandantes.

Mas não havia tempo para luto. A fúria de Madame Satã era prática.

— Temos que salvar nossas peles! — ela bradou, os olhos incendiados. — Eles vêm. Agora.

Ela se virou e subiu as escadas de volta à redação. Foi direto a um baú de madeira, de onde tirou sua velha navalha, a lâmina que havia cortado tanto tecido quanto carne, em defesa própria e alheia. Afiada como o dia em que foi comprada. Ela a enfiou no bolso do roupão.

Abriu a porta da frente do sobrado e saiu para a rua escura. Como ela pressentira, já havia um guarda montando vigília do outro lado da rua, um jovem recruta com ar nervoso, apoiado em sua viatura.

Ele mal teve tempo de erguer a mão para o rádio ou para a arma. Madame Satã não correu. Caminhou com passos largos e decididos diretamente até ele. O guarda, confuso com a figura imponente que surgia das sombras, hesitou por um segundo fatal.

Foi o bastante. A mão dela saiu do bolso num movimento fluido, um arco prateado que cintilou sob a luz do poste. A lâmina encontrou a garganta exposta do jovem com uma precisão cirúrgica e brutal. Um jorro escuro, um sibilo de ar que não virou grito. O guarda caiu de joelhos, depois de bruços, no asfalto.

Ela não olhou para trás.

Dentro da casa, ao som do corpo caindo, Alice, Márcio e Zé Lopes agiram. Era o sinal. Pegaram o pouco que podiam — dinheiro, documentos falsos, o transceptor essencial de Zé — e saíram pela porta dos fundos, cada um para uma direção diferente, se dissipando no labirinto da Lapa como fumaça.

Madame Satã deixou a navalha cravada na calçada, ao lado do corpo. Deu um último olhar para a fachada silenciosa do Correio Matutino. Lá dentro, ficavam as máquinas de escrever silenciosas, o mimeógrafo frio, os diagramas na parede, os restos de café. Ficava a história de afeto e amizade, os ecos dos debates, dos risos abafados, do beijo roubado no pátio. Ficava a memória dos cinco jovens que acreditavam poder iluminar as sombras com papel e tinta.

Tudo seria varrido, queimado ou esquecido.

Ela se virou e desapareceu na noite, uma sombra maior que todas as outras, carregando consigo o peso de um laroyê que soava menos como saudação e mais como um epitáfio para uma certa ideia de justiça. A luta pela justiça dos vivos e dos mortos continuaria, em outro lugar, de outra forma. Mas ali, naquela rua, naquela redação, terminava.

Com um guarda morto, um grupo dissipado e o silêncio pesado caindo sobre os restos de uma resistência que ousara sonhar alto demais para os anos que haviam chegado.

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