quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLV)

Aquela noite de dezembro de 1968 caía sobre o Rio com uma pesada umidade de verão. Dentro do sobrado, o trabalho era contínuo, um zumbido de máquinas de escrever, sussurros e o cheiro químico do mimeógrafo. A tensão do AI-5 iminente, a pressão para espalhar o dossiê, a vigilância constante — tudo pesava como uma laje. Mas, no pequeno pátio dos fundos, um espaço de terra batida onde um jardim minguara sob o descaso, uma tensão de outra natureza finalmente encontrava seu ponto de ruptura.

Era por volta das 20h. O calor do dia ainda emanava das paredes de tijolo. Lucas estava sentado nos degraus de madeira gastos da escada de serviço, mordiscando metodicamente uma maçã vermelha que Alice conseguira na feira. A fruta era doce e ácida, um contraste com o gosto constante de poeira e medo.

Laura estava de pé, alguns passos à frente, no pátio. Ela não conseguia ficar parada dentro de casa. A energia dela, que antes se canalizava em organizar arquivos e datilografar com fúria, agora se voltava para dentro, agitada. Seu olhar percorria os vestígios do antigo jardim — uma roseira selvagem, um canteiro de ervas-daninhas — mas sua mente estava em outro lugar.

A conversa havia começado sobre o perigo, o plano, os próximos passos. Mas, como sempre acontecia desde que se conheceram, havia desviado para algo mais pessoal. O assunto agora era a vida que haviam deixado para trás.

— Minha mãe deve ter ido à polícia — disse Lucas, com um tom de resignação que tentava soar casual. Ele olhou para o núcleo da maçã. — Ou acharam que eu fugi com alguma garota e vão me dar como morto até eu aparecer com um filho no colo. O que, considerando tudo, não é a pior cobertura.

Laura deu uma risada baixa, mas sem humor. — Meu pai deve estar dizendo para... qualquer um que eu fui fazer um intercâmbio de última hora. ‘A Laura é tão aplicada, foi estudar na Europa’. — Ela imitou a voz altiva e esnobe do pai, mas o efeito foi mais triste do que engraçado. — Eles não vão conseguir engolir a verdade. Que a filha deles é uma subversiva, uma fugitiva.

Ela fez uma pausa, os braços cruzados. O silêncio entre eles era diferente. Não era o silêncio cúmplice de antes, quando trocavam olhares durante as reuniões do DCE. Naquelas reuniões, ele era o rapaz tímido do curso de Letras, de óculos e sardas, que falava pouco, mas quando falava, era com uma clareza cortante sobre Gramsci que a fazia prestar atenção. Ela, a estudante de Comunicação Social, cheia de certezas e senso crítico afiado, sempre o notava no canto, anotando. O interesse havia nascido ali, naquele espaço de ideias e rebeldia teórica.

Mas a aventura — a fuga, os espectros, o roubo no clube, a escrita do dossiê — mudara tudo. A convivência diária e forçada, as noites de vigília, o medo compartilhado e a coragem desesperada haviam fertilizado o terreno para algo que as teorias não explicavam. O sentimento, cuidadosamente contido pelo perigo constante, agora aflorava como a roseira selvagem no pátio: teimosa, incontrolável, bela em sua impropriedade.

Num dado momento, Laura se cansou de falar de ausências. Ela se virou e deu dois passos firmes em direção à escada. Parou diante dele, sua silhueta bloqueando a luz fraca que vinha da janela da cozinha. Uma mão dela se agarrou ao corrimão de ferro enferrujado, como se precisasse de apoio para o que ia dizer.

— Lucas — ela chamou, a voz mais suave do que ele jamais ouvira. — Sabe de uma coisa? Desde aquela primeira reunião no DCE, quando você discutiu o conceito de hegemonia cultural e ninguém mais na sala parecia entender, mas eu entendi… desde sempre eu tive interesse em você.

Lucas parou de morder a maçã. O pedaço que estava mastigando ficou preso em sua boca. Ele a olhou, seus olhos por trás dos óculos ampliados pela surpresa. A luz fraca iluminava o contorno determinado de seu rosto, a franja desarrumada, a intensidade em seus olhos que não era mais só de luta política.

Ele engoliu o pedaço de maçã com dificuldade, a doçura e a acidez agora uma bola nervosa em sua garganta.

— Laura, eu… — ele começou, mas as palavras se perderam.

Ela não esperou. Inclinando-se para frente, ainda segurando o corrimão com uma mão, ela beijou-o.

Não foi um beijo hesitante ou doce. Foi um beijo firme, um ato de decisão tão característico dela. Carregava o gosto da maçã, do sal do suor do dia, e de todas as palavras não ditas, de todos os perigos enfrentados juntos. Era um beijo de aqui e agora, um clamor por algo real no meio do caos que os cercava.

Lucas ficou imóvel por uma fração de segundo, o mundo desfocando ao seu redor. Então, suas mãos se moveram. Ele deixou a fruta rolar, colocou a mão livre na nuca dela, puxando-a para mais perto, respondendo ao beijo com uma urgência igual.

Foi nesse exato momento que a porta dos fundos se abriu com um rangido.

Madame Satã surgiu no limiar, um cigarro longo já entre os dedos, provavelmente à procura de um lugar para fumar longe do cheiro do mimeógrafo. Seus olhos, acostumados a ver tudo na Lapa, captaram a cena instantaneamente: os dois jovens entrelaçados nos degraus, a maçã abandonada, o ar carregado de descoberta.

Um sorriso largo e irreverente abriu-se em seu rosto. Ela não fez cara feia, nem recuou. Em vez disso, ergueu as mãos e bateu três palmas lentas e altas, que ecoaram no pátio quieto.

Pá! Pá! Pá!

— Tá na hora de parar a safadeza, circulando, circulando!! — anunciou ela, em sua voz grave e arrastada, carregada de autoridade cômica, mas inquestionável. — O romance de vocês pode esperar, mas o Brasil não! Lá dentro tão precisando de ajuda pra embalar os pacotes pro exterior. Depois vocês continuam a novela das oito.

Laura e Lucas se separaram de um salto, como adolescentes pegos no portão pela mãe. O rosto de Laura ficou escarlate, enquanto Lucas, atrapalhado, buscou a maçã no chão, evitando o olhar de todos.

Madame Satã deu uma longa tragada no cigarro, a fumaça saindo em um anel perfeito. Seus olhos brilharam com uma centelha de afeto genuíno no meio da severidade teatral.

— Aproveitem o sentimento, meus filhos — disse ela, num tom mais baixo. — Num mundo que tá ficando mais cinza a cada dia, um pouco de cor é resistência também. Mas agora, circulando.

Ela fez um gesto magnânimo com a mão, indicando a porta, e posicionou-se no pátio para fumar, concedendo-lhes — e a si mesma — um momento de privacidade para se recomporem.

Laura e Lucas trocaram um último olhar, um misto de constrangimento, riso contido e uma cumplicidade que agora era pública, abençoada, de certa forma, pela irreverência protetora de Madame Satã. A guerra continuava, o AI-5 se aproximava, mas, naquele instante, haviam sido lembrados de que também estavam vivos. E, às vezes, viver incluía uma maçã, um beijo roubado e as palmas irônicas de uma lenda da Lapa.

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