Primeiro, foi um sussurro nos corredores do poder. Um telegrama cifrado de Berna. Um despacho urgente de Paris. Uma chamada direta de Washington. Em questão de dias, o sussurro transformou-se num rugido que abalou os alicerces do regime.
O escândalo estourou nas páginas do Neue Zürcher Zeitung, sob a manchete seca: "As Raízes Podres de um Coronel: Escravidão, Sanatório e Fortuna Ilícita na Ascensão Militar Brasileira". No mesmo dia, Le Monde publicava uma investigação aprofundada sobre "As Ligas da Morte e a Herança de um Latifundiário". O Washington Post, atento aos ventos geopolíticos, trouxe: "Aliado Brasileiro Sob Suspeita: O Passado Que Ameaça o Presente".
O dossiê Sabará, meticulosamente compilado na redação do Correio Matutino e disseminado pela rede de resistência, havia atingido seu alvo com precisão devastadora. A história do bebê afogado, de Isabela trancafiada, da Roda dos Esquecidos e das terras roubadas — tudo amarrado ao nome do coronel — não era mais uma lenda subterrânea. Era um fato internacional.
A crise dentro das Forças Armadas foi imediata e virulenta. A linha dura, da qual Sabará era um pilar, sentiu o chão tremer. Oficiais de tradição mais legalista, constrangidos, exigiram explicações. A imagem de profissionalismo e "limpeza" que o regime tentava vender ao exterior rachou. Pior: a CIA, que via no Brasil um aliado anticomunista crucial, ficou furiosa. A exposição era uma bagunça desnecessária, um risco à estabilidade do projeto. Relatórios urgentes foram enviados ao presidente Richard Nixon. A ordem que voltou foi clara e gélida: "Contenham. Isolem. Punam, se necessário. Não podemos ser associados a isso."
A investigação interna contra o Coronel Sabará foi decretada não por um súbito amor à justiça, mas por puro controle de danos. Era uma farsa de disciplina, um ritual de sacrifício para salvar a fachada. Sabará, que se preparava para a assinatura triunfal do AI-5 em Brasília, foi convocado de volta ao Rio sob custódia velada. Não mais o herói do regime, mas o problema a ser eliminado.
O Ato Institucional Nº 5, o instrumento que selaria os "Anos de Chumbo", foi antecipado em um frenesi de pânico e raiva. Assinado em 13 de dezembro de 1968, não foi mais apenas um golpe dentro do golpe; foi também um ato de reação, uma tentativa de fechar todas as comportas, calar todas as vozes, apagar todos os rastros — incluindo os do próprio Sabará e de quem ousara expô-lo. O Congresso foi fechado, os direitos, suspensos. A caça, oficializada.
No sótão da redação do Correio Matutino, o mundo exterior era um furacão de aço e ódio. Mas, naquela noite abafada de 14 de dezembro, entre vigas de madeira exposta e pilhas de jornais antigos cobertos de poeira, havia um universo de apenas dois corpos.
Era a primeira noite de amor entre Laura e Lucas. Não houve romantismo planejado, nem lençóis limpos. Havia um colchão de solteiro despejado no chão, coberto por um cobertor surrado que Alice encontrara. O ar cheirava a papel velho, pó e medo. Mas também cheirava a suor, a desejo contido por tanto tempo, e à urgência brutal do agora.
Eles se deitaram vestidos no escuro, ouvindo os ruídos da cidade sob o toque de recolher não declarado. O beijo no pátio havia sido um início; aquilo era uma rendição. As roupas foram tiradas não com languidez, mas com uma pressão tácita, como se cada botão aberto fosse um fio cortado do mundo lá fora. A pele deles encontrou-se quente e tensa.
Não foi doce. Foi áspero, real, cheio de silêncios quebrados por suspiros e pelo ranger da madeira sob seus corpos. Havia medo no toque de Laura — medo do futuro, medo da morte, medo de perder aquilo que mal havia começado. Havia fúria no abraço de Lucas — fúria contra o regime, contra a injustiça, contra a impotência. O amor deles, naquela noite, era outra forma de resistência. Um ato de afirmação da vida diante da máquina de triturar vidas que se instalava lá fora.
Depois, ficaram deitados, entrelaçados, a pele úmida colando um no outro, ouvindo a respiração ofegante acalmar. Laura traçou os contornos das sardas no ombro de Lucas, como se estivesse memorizando um mapa.
— Eles vão nos caçar com tudo agora — sussurrou ela, a voz rouca na escuridão.
— Eles já estavam caçando — ele respondeu, apertando-a contra si. — A diferença é que agora o mundo sabe por quê. O nome dele está manchado para sempre. Não vão conseguir apagar.
— E a gente? — a pergunta saiu pequena, frágil.
Lucas não respondeu com palavras de esperança vazia. Beijou sua testa, um beijo pesado, carregado da mesma verdade brutal que os cercava.
— A gente tem hoje — ele disse, simplesmente. — E temos isso. E temos o que fizemos. É mais do que ele vai ter no fim.
Lá fora, os "anos de chumbo" começavam oficialmente. O coronel Sabará estava sendo devorado pelo próprio monstro que ajudara a criar. A vitória deles era amarga, parcial e perigosíssima. Mas naquele sótão, por algumas horas, o amor não era uma fuga. Era um forte silencioso, um atestado de humanidade escrito a quente sobre a pele, no calor precário de dois corpos que se recusavam a ser apenas fantasmas na história que ajudaram a escrever.
Em um plano de existência que se dobra entre as fundações do Arco do Teles e o eco de todas as confissões já sussurradas sob sua abóboda secular, Bárbara dos Prazeres observava.
Seu "palácio" não era de mármore ou ouro, mas de sombras úmidas, do brilho opaco de lágrimas secas há séculos e do calor residual de desejos proibidos. Era um lugar feito da essência da cidade que atravessou os tempos, do que flui para os esgotos e do que sobe, como vapor, dos becos. Ali, sentada em um trono de cantos arredondados pelo tempo e pela memória, ela assistia ao desenrolar da trama que ela mesma acendera.
O caderno de couro gasto — aquele que entregara às mãos frias de Ana naquela noite eterna — agora viajava por outras mãos, suas palavras decifradas, sua verdade replicada em prensas rotativas em Zurique, Paris, Washington.
Ela se regozijou.
Um riso baixo, que era o som do riacho de esgoto encontrando a maré, ecoou em seu reino. Viu o nome Sabará — aquele mesmo sobrenome que o avô arrogante e trêmulo lhe confessara em troca de um falso perdão — estampado como manchete, repetido em telegramas, cuspido com desprezo em reuniões secretas. A verdade, aquela verdade podre e pesada que ela guardara como uma pérola negra, foi trazida à tona como uma explosão nos esgotos. Sujou os sapatos polidos dos generais, inundou os gabinetes com seu fedor inegável. A vingança, se é que podia ser chamada disso, era perfeita. A bruxa do Arco do Teles havia, do além, usado os vivos como suas mãos, e arrancado a máscara da dinastia.
A ignição que ela fornecera criara uma labareda que consumia seu alvo.
Mas Bárbara dos Prazeres não era apenas força vingativa. Era uma entidade tecida de dor alheia, de segredos carregados, do peso de incontáveis histórias não contadas. E no tecido da sua própria existência, ela também sabia.
Sabia as consequências.
Enquanto seu regozijo ecoava nas sombras, um outro sentimento, mais antigo e profundo, começou a subir como a água de uma enchente lenta. Ela viu, não com olhos, mas com a percepção de quem habita o entrelugar entre a vida e a morte, o tsunami de aço que se precipitava sobre o Rio. O AI-5 não era apenas um decreto; era um portão de ferro caindo sobre o país. Ela sentiu o aperto no peito de Ana, o medo no toque de Lucas e Laura no sótão, a fuga desesperada que ainda os aguardava. Sentiu a rede se fechar, a escuridão institucional se aprofundar.
Ela não sentiu orgulho. Sentiu um lamento profundo e silencioso, que era o lamento de todas as mães que perderam filhos para a violência do Estado, de todas as vidas truncadas pela sanha do poder. Sua vingança contra uma linhagem de crueldade desencadearia uma era de crueldade ainda mais ampla, mais sistemática. O mal que ela expusera não seria extirpado; seria acuado, e uma fera acuada é a mais perigosa.
Em seu palácio de sombras, o riso se apagou. Seu rosto, uma paisagem de memórias intangíveis, inclinou-se. Uma "mão" feita de névoa tocou as páginas fantasmagóricas do próprio caderno.
— Trouxeram a verdade à luz — sussurrou para o vazio, sua voz o som de uma porta rangendo em um beco abandonado. — Mas a luz agora atrai a tempestade. Eu lhes dei a chama… e esquecí de avisar sobre o vento.
Ela havia feito o que uma bruxa faz: entregou o instrumento do destino. O como e o porquê de seu uso cabia aos vivos. E o preço, também.
Seu regozijo não morreu, mas fundiu-se à sua pena eterna, formando uma nova camada na melancolia de seu reino. A verdade explodira nos esgotos, sim. Mas agora, todos teriam que nadar nas suas águas sujas, tentando não se afogar. Bárbara dos Prazeres observaria, como sempre observara, guardando agora também o peso desse novo capítulo de dor que ela, em parte, ajudara a escrever. A justiça, se é que existia, era uma faca de dois gumes, e o cabo, invariavelmente, cortava a mão de quem a empunhava.
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