quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIX)

Os Anos de Chumbo desceram sobre o Brasil como uma bigorna. O AI-5 rasgou a Constituição, e com ela, qualquer véu de legalidade. Os porões do DOPS, do DOI-CODI e de tantas outras siglas do horror encheram-se de vozes silenciadas a socos, choques e afogamentos. A lista de desaparecidos cresceu como uma ferida no mapa do país. Mortos sem sepultura, vidas truncadas no limiar da juventude, famílias dilaceradas pelo não-saber. A dor não foi um acidente; foi política de Estado. O sofrimento, um instrumento.

E essa sede de poder, essa crueldade metódica que usou o Estado como máquina de triturar gente, não nasceu em 1964. Ela tem raízes mais antigas, tão antigas quanto a colonização deste solo. É a mesma sede que afogou o bebê na senzala da fazenda. A mesma que trancou mães em sanatórios. A mesma que girou Rodas dos Esquecidos, tratando vidas como mercadoria para limpar linhagens. É a herança do latifúndio que engoliu terras e vidas, da casa-grande que sempre buscou controlar a senzala, a rua, o quarto, o pensamento.

O fantasma desses homens — os coronéis, os capitães-do-mato, os doutores de cartola e chicote, os generais de óculos escuros — não assombra apenas os arquivos empoeirados. Ele se materializa em cada grito de "onde está?" nunca respondido. Em cada tentativa de apagar a história sob o pretexto da "ordem". Em cada novo nome poderoso que sobe sobre os ossos dos esquecidos. Ele é tenaz. Insiste.

Mas nas sombras que esses fantasmas projetam, outras luzes teimosas não se apagaram. As luzes reais, de carne e osso, cujos nomes o regime tentou apagar, mas que a memória teima em gravar a fogo:

O espírito de Iara Iavelberg, jovem e corajosa, psicóloga que sonhava com liberdade e foi levada pela violência do Estado, vive em quem não abaixa a cabeça.

O de Vladimir Herzog, jornalista que acreditava na força da palavra e cuja morte forjada não conseguiu matar a verdade, ecoa em todo profissional que denuncia a opressão.

O de Alexandre Vannucchi Leme, estudante de geologia torturado até a morte, aquece a resistência de quem sabe que o futuro pertence aos que lutam.

O de Helenira Rezende, jovem militante, e de Santo Dias da Silva, operário e líder comunitário, cujas vidas foram ceifadas pela repressão, ressoa em cada estudante e trabalhador que levanta a voz.

O de Dinaelza Coqueiro, militante da VPR, e de tantas outras mulheres cuja coragem foi silenciada à força, personifica a fúria indomável dos que são duplamente marginalizados.

O de Eduardo Collen Leite, "Bacuri", e de Antônio Carlos Bicalho Lana, "Bicalho", jovens idealistas desaparecidos, é o alicerce da solidariedade que nunca esquece seus filhos.

E o de Madame Satã — o João Francisco dos Santos real —, com sua existência inteira de desafio às normas, lembra que a resistência também é identidade, é afeto, é a celebração da vida em toda a sua complexidade.

E até o espectro coletivo dos que confessaram sob tortura, dos que desapareceram sem deixar rastro, das vítimas anônimas da Vala de Perus, segue um lembrete de que os segredos dos opressores, por mais bem guardados, um dia clamam por justiça.

A luta que foi travada nas ruas, nas redações clandestinas, nas celas de tortura, não terminou no silêncio imposto. Foi semente. Uma semente plantada no asfalto rachado e no solo manchado de sangue. Brotou na Comissão Nacional da Verdade, nos memoriais de pedra com nomes ausentes, nos arquivos digitalizados de quem não quer o esquecimento. Brota cada vez que um jovem levanta um cartaz com o rosto de um desaparecido, que uma mãe das praças públicas exige respostas, que um artista conta a história proibida.

A maldade e a injustiça mudam de roupa, de discurso, de sigla. Mas a sua essência — a vontade de dominar, de calar, de apagar — é a mesma. Contra ela, nosso antídoto é a memória obstinada. É saber que todos esses nomes existiram. Que suas vidas foram reais, seus sonhos foram concretos, seu sangue foi derramado. Que o amor e a amizade resistiram, mesmo no cárcere.

O fascismo pode ser um fantasma insistente, mas nós somos o fogo que não se deixa apagar — um fogo alimentado pela lenha de todas as vidas que foram roubadas e que, com seu exemplo silencioso ou seu grito abafado, nos sussurram, através dos tempos:

Lute. Lembre. Não tenha medo. Nós estamos contigo.

FIM.

Nenhum comentário:

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIX)

Os Anos de Chumbo desceram sobre o Brasil como uma bigorna. O AI-5 rasgou a Constituição, e com ela, qualquer véu de legalidade. Os porões d...