quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLVII)

O ar da manhã de 15 de dezembro já pesava como chumbo, carregado de um silêncio anormal que havia caído sobre a cidade desde a noite anterior. Márcio chegou antes do sol se firmar, trazendo o sustento modesto: pães ainda mornos e umas fatias finas de mortadela embaladas em papel manteiga. Mas ao se aproximar da porta surrada do Correio Matutino, seu passo hesitou.

Um papel, cuidadosamente dobrado em quatro, estava preso embaixo da porta. Não era um panfleto jogado ao vento. Tinha a precisão de uma mensagem. Ele se abaixou, os ossos rangendo, e o pegou. Desdobrou.

Letras de máquina de escrever, uniformes e impessoais, golpearam seus olhos:

PASTOR ALEMÃO. BOX 777. 21H.

O código. O sinal de emergência combinado por Rafael.

Nesse momento, Ana descia as escadas de madeira que rangiam, uma toalha enrolada como um turbante em seus cabelos ainda úmidos. Ela viu Márcio paralisado na porta, o rosto cinza.

— O que houve, Márcio? Parece que viu um fantasma! — sua voz tentou um tom leve, mas já carregava um fio de alarme.

Márcio se virou devagar, como se o papel queimasse seus dedos. Estendeu-o para ela.

— Rafael… — ele disse, a voz um rosnado grave. — Ele chamou.

Ana desceu os últimos degraus num pulo, a toalha quase se soltando. Arrancou o papel das mãos dele e leu as palavras em voz alta, clara, para que todos na sala, já despertando, ouvissem:

— "Pastor alemão. Box 777. 21h."

Ela ergueu os olhos do papel, varrendo os rostos que agora a encaravam — Carlos com os óculos na ponta do nariz, Paulo pálido, Laura e Lucas ainda com a marca dos lençóis no rosto, Alice parada na porta da copa com a cafeteira na mão.

— É hoje — anunciou Ana, a voz firme, mas com uma faísca de ansiedade no fundo. — Rafael tem notícias. E se usou o código de emergência… não são boas.

A energia do lugar congelou. O cheiro do café coando e do tabaco de Alice, antes dominantes, pareceram evaporar, substituídos por um cheiro agudo e metálico: a adrenalina, correndo como um rio subterrâneo nas veias de cada um. A pergunta pairou, não dita: Como faremos para nos encontrar com Rafael sem levantar suspeitas? Agora, com o AI-5 em vigor, a cidade era uma armadilha. Reuniões eram suspeitas. Grupos de mais de duas pessoas eram alvo. O toque de recolher não estava no papel, mas estava no ar, na forma de olhares duros em cada esquina, no súbito desaparecimento de vozes conhecidas do rádio.

Foi Madame Satã quem quebrou o gelo pesado. Ela não havia se levantado de sua cadeira no canto. Fumava, observando a fumaça subir em espirais lentas. Sua voz surgiu, rouca e cheia de uma autoridade que brotava da terra.

— Vocês vão. Todos. Mas divididos.

Todos se viraram para ela.

— Ana vai encontrar o Rafael. Só ela. É o combinado. Mas ela não vai sozinha pela cidade. Laura vai com Lucas — ela apontou o cigarro para o casal. — É menos suspeito um casal de namorados apaixonado passeando de noite, mesmo numa noite dessas. Segurem as mãos, finjam que o mundo lá fora não existe. Vão pelo Centro, mas sem pressa. Olhem vitrines, se tiverem abertas.

— Carlos vai com Paulo — continuou, seu olhar passando pelos dois rapazes. — Vocês vêm pelo outro flanco, pelo Caju. Roupas de trabalhador. Andem como se estivessem cansados do dia. Não olhem para os outros. Vocês vão vigiar a Ana para que nada dê errado. Se virem movimento estranho, se perceberem uma emboscada, um de vocês cria uma distração. O outro dá o sinal para a Laura e o Lucas, e eles tiram a Ana dali.

Ela deu uma longa tragada, os olhos semicerrados em um plano tático que só ela podia ver completamente.

— Ninguém leva nada escrito. Nada que possa ligar a gente ao jornal ou ao dossiê. É só um encontro. Um encontro que pode salvar a pele de vocês ou condenar tudo. Agora, vão comer. E fiquem espertos. A cidade tá com olho de cobra.

Aquele dia passou nervoso. O rádio a pilha na redação sussurrava notícias absurdas sobre "paz e harmonia" enquanto, entre as linhas das próprias emissoras, anunciavam o desaparecimento de jovens, "procurados para averiguações". Os jornais que Márcio trouxera mais tarde eram um exercício de ficção orwelliana: fotos de desaparecidos em páginas miúdas, contrastando com manchetes ufanistas e a foto imponente do presidente da República, sorridente em um quarto de página.

Madame Satã pegou um dos jornais. Mesmo sem saber decifrar todas as letras, as fotos falavam por si. O sorriso do presidente, os desfiles militares, a sensação de uma felicidade fabricada a golpes de censura. Seu rosto, uma máscara de desprezo profundo, contraiu-se em um misto de raiva e nojo. Com um gesto brusco, ela jogou o jornal no chão de madeira sujo. Olhou para a foto do presidente, aquele símbolo da nova e brutal ordem. E então, com uma precisão deliberada, cuspiu em cima dela. O cuspe escorreu sobre o rosto imponente, manchando o papel barato, um ato mudo de desafio no coração da redação clandestina.

Era um gesto pequeno, inútil contra o poder dos tanques e dos porões. Mas era humano. Era verdadeiro. E naquele lugar, naquela hora, era mais poderoso que qualquer manchete.

O dia escureceu com uma lentidão agonizante. Às 20h, os pares começaram a sair, em intervalos, cada um carregando no peito não apenas o medo, mas a centelha de resistência que Madame Satã, com seu cuspe de desprezo, havia reacendido.

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