quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Madame Satã: Uma Biografia em sombras e lampiões)

Ela veio ao mundo como João Francisco dos Santos em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco, sob um céu de estrelas cintilantes e uma seca que rachava a terra. Mas o menino João, de pele escura e olhos que já desafiavam o horizonte estreito, sempre soube que seu destino não caberia nas fronteiras da caatinga. Trocado por uma égua, trabalhando forçadamente para pagar seu preço, ele viveu como pôde, mas aos 13 anos, partiu. Fugiu; emigrou, levando consigo apenas a fome de existir plenamente. O Rio de Janeiro o engoliu, mas não o digeriu. Ele se tornou Madame Satã não por capricho, mas por ato de guerra: uma guerra de identidade travada nos becos da Lapa, onde a sobrevivência era performance.

A Lapa e a Forja:

A Lapa dos anos 20 e 30 era seu verdadeiro berço, sua academia e seu teatro. Entre os vapores do álcool barato, o suor dos marinheiros e o lamento das cantoras de fado, Madame Satã se forjou. Não foi apenas um malandro, foi um arquétipo ambulante. Usava vestidos de lamê sobre músculos de capoeirista, batia de frente com policiais que ousavam desafiar sua dignidade, e sua fama de brigão lendário era temperada por uma ética peculiar: roubava dos ricos, protegia os fracos (especialmente as prostitutas e os homossexuais perseguidos) e sua casa era um refúgio para desvalidos de todas as cores e amores. Passou décadas entrando e saindo da prisão – a Ilha Grande foi seu endereço recorrente –, cada cela um camarim onde aprimorava sua persona de diva indomável. A lei tentava enquadrá-lo como "vadio" ou "capoeira"; a história o registraria como o primeiro grande ícone queer e antissistema do Brasil, muito antes dos termos existirem.

A Persona e o Poder:

Madame Satã não era uma travesti no sentido moderno; era uma entidade de terceira margem. Uma força da natureza que usava a feminilidade como armadura, provocação e arte. Seu nome, roubado de um filme sobre o demônio, era um escudo e um estandarte. Na boca do povo, "Madame Satã" era sinônimo de coragem temerária, de uma lealdade feroz aos seus, e de uma língua afiada que podia demolir um agressor tanto quanto seus punhos. Era a matriarca não oficial da boemia marginal, uma figura que comandava respeito não pelo medo que inspirava, mas pelo tamanho incomensurável de sua alma.

Os Últimos Anos na Lapa:

Após décadas de uma vida intensa, marcada por prisões, brigas lendárias, noites de farra e uma presença magnética que definiu uma era da boemia carioca, os anos 1970 encontraram João Francisco dos Santos – Madame Satã – envelhecendo. A Lapa que ela conhecera, o reduto de malandragem, liberdade e cultura marginal, já não era a mesma. A ditadura militar (1964-1985) havia apertado o cerco, a repressão moral e policial aumentava, e o bairro começava um longo declínio. O espaço para figuras tão grandiosas e indisciplinadas como a dela estava se fechando.

Ela vivia então em um pequeno quarto no cortiço Cabaré Mayflower, na Rua Aires Saldanha, no coração de uma Lapa decadente. Já não era a temida lutadora de outrora, mas sua presença ainda impunha respeito. Era uma figura venerada pelos mais velhos e vista com curiosidade pelos mais novos. Passava dias na porta do cortiço, observando a rua, contando histórias para quem quisesse ouvir, vivendo de pequenos bicos e da ajuda de amigos fiéis que nunca o abandonaram.

Saúde e Dificuldades:

Sua saúde, naturalmente, declinava. O corpo que havia enfrentado policiais e capangas, que carregara pianos e dançara a noite inteira, agora padecia de problemas respiratórios e do desgaste natural de uma vida tão árdua. A pobreza era uma companheira constante. Em certos momentos, dependeu da caridade de antigos conhecidos e de instituições de caridade para se alimentar e se medicar.

O Reconhecimento Tardio e a Morte:

Um lampejo de reconhecimento maior veio em 1974, quando o jornalista e biógrafo Sylvio Túlio Cardoso começou a entrevistá-la para o livro que se tornaria a primeira biografia sobre sua vida: "Madame Satã: A Vida e a Lenda de João Francisco dos Santos". Esse processo talvez tenha sido um de seus últimos atos de performance, uma chance de curar sua própria lenda para a posteridade. Ela faleceu pouco antes de ver o livro publicado.

Madame Satã morreu em 12 de abril de 1976, aos 76 anos, no Hospital Municipal Rocha Faria, em Copacabana. A causa oficial foi parada cardiorrespiratória, mas pode-se dizer que foi o esgotamento de uma vida vivida com uma intensidade poucas vezes igualada. Sua morte foi discretamente noticiada, mas ecoou profundamente na comunidade LGBT, nos moradores da Lapa e em todos aqueles que viam nela um símbolo máximo de rebeldia e autenticidade.

O Legado Póstumo:

Ao contrário do que se poderia imaginar, sua morte não apagou a lenda; foi o catalisador que a transformou em mito nacional. A publicação da biografia e, décadas depois, o premiado filme "Madame Satã" (2002), dirigido por Karim Aïnouz e com uma atuação monumental de Lázaro Ramos, imortalizaram sua figura para novas gerações.

Hoje, Madame Satã é reconhecida como um ícone precursor da luta LGBTQIA+ no Brasil, que desafiou normas de gênero e sexualidade décadas antes do movimento se organizar; um símbolo da resistência negra e periférica, que usou a astúcia, a força e a arte para sobreviver e afirmar sua dignidade em uma sociedade profundamente racista e classista; a personificação de uma certa essência carioca – malandra, teatral, resiliente e cheia de estilo.

Seu túmulo, no Cemitério do Caju, tornou-se local de visitação e homenagem. Sua vida, que terminou na penúria material, transformou-se em um tesouro cultural inestimável. O fim de Madame Satã foi o de um homem velho e pobre, mas sua partida consagrou a lenda de um titã que, com seus punhos, sua agulha de costura, seus vestidos e sua coragem desmedida, costurou para si um lugar eterno na história do Brasil. Ela não desapareceu; saturou o ar. Sua presença ainda é sentida nos becos da Lapa, em cada performance de drag que ousa existir, e em toda luta contra a opressão.

Madame Satã no Arquivo das Sombras:

Os anos 60 a encontraram mais velha, mas não domesticada. A Lapa mudava, a repressão moral da ditadura começava a sufocar os espaços de liberdade que ela ajudara a construir. Foi nesse crepúsculo que ela encontrou um novo papel: não mais apenas o protetora dos marginalizados da noite, mas a guardiã dos perseguidos do dia. O sobrado do Correio Matutino e a luta dos jovens idealistas contra o Coronel Sabará representavam uma nova frente na mesma guerra eterna contra a opressão. Para Ana, Carlos, Laura, Paulo e Lucas, ele não era uma lenda dos guias turísticos; era Satã, a presença imóvel no canto da sala, cujos olhos velhos enxergavam fantasmas e futuros, e cuja simples existência ali era um testemunho de que era possível resistir, por décadas, e ainda encontrar razão para lutar.

Madame Satã era, portanto, muito mais que uma personagem histórica. Na trama de "O Arquivo das Sombras", ela é a ponte viva entre as cicatrizes do passado e as feridas abertas do presente. Um farol cujas luzes são feitas de lampejos de navalha, lamê e uma ternura feroz, inabalável, que só os verdadeiros titãs da marginalidade podem possuir.

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