segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XV)

O cheiro denso de mofo, tinta e medo no porão foi subitamente disputado — e quase dominado — por um aroma quente, gorduroso e profundamente terrestre: ensopado de porco. Alice desceu a escada carregando uma panela de ferro esmaltada, de onde escapava vapor, e três garrafas de cerveja Marajó geladas, que suavam na umidade do ambiente.

"Um exército não marcha de estômago vazio," anunciou ela, sem cerimônia, baixando a panela sobre um vão livre da mesa de trabalho. "Nem uma revolução se faz só com papel e raiva. Comam."

Era um gesto simples, materno em sua praticidade brutal, que por um instante quebrou a espiral de tensão intelectual e conspiratória. A fome, adiada pelo susto, pela adrenalina e pela descoberta horrenda, anunciou-se com um rugido coletivo. Ela trouxe pratos de metal e colheres.

Sentaram-se em caixotes e cadeiras tortas, em volta da panela fumegante. O silêncio que se seguiu não era de desconforto, mas de uma concentração profunda. O ato de comer, de ingerir algo sólido e quente, os ancorava de volta aos corpos, à realidade física daquela noite. Cada colherada de ensopado — com sua carne dura mas saborosa, seu calho engrossado com farinha, seus pedaços de batata — era um combustível.

Mas os olhos, fixos no vazio sobre os pratos, ou nas paredes úmidas, não descansavam. Cada um construía, nos pensamentos, o dia seguinte.

Lucas via sequências de eventos, como cenas de um filme: Carlos entrando no Arquivo, a troca de olhares, o dinheiro passando, os documentos sendo selados. Ele ensaiava mentalmente o manifesto que escreveria quando as provas estivessem em suas mãos.

Ana ainda sentia o gosto de poeira ácida e horror na boca, mas agora misturado ao caldo. Revia as palavras de João "Faca". Pensava em Luigi, o italiano assassinado. Em Isabela. Sua determinação se solidificava como gordura esfriando no prato.

Carlos mastigava com cuidado, sentindo o peso imaginário do terno que usaria. Ensaiava frases, posturas. "Bom dia, em nome do Desembargador Cantareira..." Era seu tribunal particular, um teste final antes da formatura real.

Paulo olhava para suas mãos, que haviam esculpido um selo de mentira perfeito. Amanhã, elas teriam que ser firmes para forjar a carta. Ele sentia o poder estranho que emanava daquela habilidade.

Laura comia com raiva, como se cada pedaço de porco fosse um pedaço do coronel Sabará. Sua mente não planejava; antecipava o confronto. A chama que Alice e Madame Satã viam nela ardia mais forte, alimentada pelo ensopado e pela injustiça documentada.

Madame Satã observava todos, comendo pouco, bebendo um longo gole de cerveja direto da garrafa. Calculava riscos, pontos cegos, falhas na farsa. Era a generala jantando com suas tropas irregulares antes da batalha.

Terminaram. Os pratos foram empilhados ao lado da panela vazia, um monumento simples à pausa. O silêncio, que fora de construção, tornou-se expectativa pura. O ar parecia represado, esperando a faísca.

E então, veio o som.

Toc. Toc-toc. Toc.

O mesmo código impaciente do mensageiro viciado. A mesma batida que significava o elo tóxico com seus perseguidores.

Todos se ergueram de uma vez, as cadeiras rangendo no chão de terra. O ensopado quente no estômago deu lugar a um frio súbito. Madame Satã esmagou o cigarro no chão e se levantou, sua figura impondo-se na penumbra.

Ela trocou um olhar rápido e letal com Alice, que deu um sorriso estreito e assentiu. A "renegociação" ia começar.

"A plateia vai para os bastidores," Madame Satã ordenou, em um sussurro rouco, apontando para o cômodo do altar. "Vamos ver se nosso rato está disposto a trocar o pó pela própria pele."

Eles se esconderam, deixando Madame Satã e Alice à frente da mesa, iluminadas pela lâmpada nua, a panela de ensopado vazia agora um testemunho mudo da calma que antecedeu o próximo round da guerra das sombras. A porta do porão aguardava, separando o cheiro de comida caseira do fedor do vício e da repressão.

O soldado raso — um homem magro, com a farda mal-ajustada e os olhos saltados, vítreos, de quem vivia em um estado permanente de abstinência e alerta sujo — parou no meio da escada. Seu gesto era mecânico: esticou o maço de dinheiro suado na direção de Madame Satã.

Mas desta vez, em vez de pegar o dinheiro e entregar o pequeno pacote embrulhado em jornal, Madame Satã ergueu uma mão. Não era um gesto de receber. Era um "pare". Claro, firme, teatral.

O soldado congelou, confuso. O dinheiro ficou tremulando no ar. "Que foi, véia? O negócio tá diferente hoje? A mercadoria tá fraca?", sua voz era um rosnado ansioso.

Madame Satã deu um passo à frente, seu corpo imponente preenchendo o espaço entre a luz e a sombra. Ela não sorria. Seu rosto era uma máscara de pedra lascada.

"A mercadoria, meu querido, tá caríssima hoje. Mas não pra você comprar. Pra você evitar que ela vá parar em outros lugares."

O soldado piscou, lento, seu cérebro queimado pela cocaína processando as palavras com dificuldade. "Fala direito, João. Eu não tô aqui pra charada. Os homem tão esperando."

"Ah, os homens," Madame Satã repetiu, carregando o termo com um desprezo infinito. "Os caveiras do seu coronel. O Coronel Sabará, não é?" Ela viu um leve tremor na mão que segurava o dinheiro. O nome tinha peso. "Eles mandam você, um soldado raso, fazer o serviço sujo de comprar pó. Imagino que nem seja para o consumo interno, deve ser para interrogatórios, né? Para amolecer bocas. Trabalho sujo."

Ela deu mais um passo, reduzindo a distância. Sua voz baixou para um tom conspiratório e gelado.

"O problema, soldado, é que você se tornou uma testemunha. Uma testemunha viva e identificável de que o glorioso DOI-Codi do Coronel Sabará usa métodos... irregulares. Que compra droga de uma travesti da Lapa. Imagine se essa informação... vazasse."

O rosto do soldado descorou. A fissura nervosa nos olhos deu lugar a um pânico bruto. "Você não vai fazer isso... você é doida..."

"Eu?", Madame Satã riu, um som seco. "Eu sou uma empresária. E hoje, estou propondo uma troca. Você não leva a cocaína. E nós não levamos seu nome, sua descrição e o seu belo serviço para os concorrentes do seu coronel. Você sabe como é... tem gente no morro que adoraria saber que um soldado do governo tá fazendo concorrência desleal no fornecimento. E tem jornalista, mesmo censurado, que morre por uma fofoca dessas."

Alice, silenciosa como uma sombra ao lado, acrescentou do escuro, sua voz um fio de navalha: "Ou pior, imagina se chega no comando do seu quartel, por fontes anônimas, claro, que tem um soldado desviando verba de 'operações' para comprar pó pessoal... que você tá chapando o material deles."

Foi um golpe de mestre. Eles não estavam apenas ameaçando expô-lo ao inimigo externo. Estavam ameaçando devorá-lo no próprio sistema corrupto que ele servia.

O soldado olhou desesperadamente da imponente Madame Satã para a figura sinistra de Alice, depois para o dinheiro em sua mão, que agora parecia uma prova condenatória. Seu braço caiu, derrotado.

"O que... o que vocês querem?", ele gaguejou, toda a arrogância viciada evaporada.

Madame Satã estendeu a mão, não para o pacote de droga, mas para o maço de dinheiro.

"A gorjeta. Pela nossa discrição. Pelo seu silêncio. E pelo silêncio deles," ela apontou com o queixo na direção geral do quartel. "Você volta lá e diz que a fonte secou. Que a véia da Lapa foi fechada pela polícia. Que arrume outro lugar. E some da nossa porta."

O soldado hesitou por um segundo que pareceu uma eternidade. Depois, com um movimento rápido e quase vergonhoso, colocou o maço de dinheiro na mão aberta de Madame Satã. Suas mãos estavam vazias agora, e trêmulas.

"Some," repetiu Madame Satã, fechando os dedos sobre as cédulas. "E se eu sentir o cheiro de você ou de qualquer caveira perto daqui de novo... a primeira dose dessa história vai direto para onde mais vai doer no seu coronel. E a segunda, vai doer em você. Agora, vaza."

O soldado não precisou ouvir mais. Virou-se e subiu a escada quase tropeçando, a porta se fechando atrás dele com um baque abafado que ecoou no porão como um suspiro de alívio sujo.

Madame Satã soltou o ar que prendia. Virou-se para o cômodo do altar, onde os outros observavam, atônitos. Ela ergueu o maço de dinheiro, um sorriso feroz e cansado em seu rosto.

"A grana do suborno," ela anunciou. "E o silêncio dele, por enquanto. Amanhã, Carlos, você vai estar ainda mais elegante. Porque agora temos o dinheiro para vestir nosso 'estagiário' e comprar o silêncio daquele burocrata fedorento do Arquivo."

A chantagem funcionara. Eles haviam extraído recursos do próprio veneno que os perseguia. A guerra das sombras tinha suas próprias regras, e Madame Satã acabara de dar uma aula magistral.

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