segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIII)

O ponto de encontro na entrada de São João de Meriti era um lugar de passagem: poeirento, barulhento, cheio do ronco contínuo de motores a diesel e do vai-e-vem de homens apressados. Nelsinho estacionou o caminhão um pouco afastado, numa área de sombra de um barracão abandonado. A tensão era palpável. Lucas observava cada veículo que se aproximava, cada vulto que passava, enquanto Márcio, mais imponente, tentava parecer um ajudante qualquer esperando carga.

Quando um caminhão de mudanças mais antigo, com a pintura descascada e uma nuvem de fumaça preta saindo do escapamento, encostou pesadamente, todos os sentidos se aguçaram. A porta do passageiro se abriu e dela desceu, mais do que saiu, uma figura.

Era Zé Lopes. Magro como um graveto, mas com uma energia contida que lembrava um arame farpado. Seus olhos, profundamente encovados, varriam o ambiente com a rapidez de um pássaro assustado antes de pousarem em Nelsinho. Ele vestia uma roupa surrada, de cor indefinida pela poeira da estrada. Da caçamba, puxou uma mala preta, enorme, desproporcional ao seu corpo franzino. O peso da coisa quase o derrubou, fazendo-o cambalear.

Nelsinho saiu do caminhão como um tiro. Em dois passos largos, estava ao lado do velho, segurando-o pelo braço com uma firmeza gentil.

— Zé, alguém te seguiu? Você está bem? — a voz de Nelsinho era baixa, mas urgente, carregada de preocupação genuína.

Zé Lopes sacudiu a cabeça, ofegante, mas com um brilho de vitória precária nos olhos. — Nada, filho. Vim no meio de uns colchões velhos. O motorista é um amigo da Tonha, sabe como é. Acho que ninguém viu.

Nelsinho, então, pegou a mala das mãos trêmulas do velho. O peso era surpreendente, desequilibrado. Nelsinho ergueu as sobrancelhas.

— Você veste chumbo, Zé? O que tem nisso, o ouro do rei Salomão?

Zé Lopes soltou uma risada curta, nervosa, que terminou num leve acesso de tosse. — Ouro não, minino. Mas vale mais. Acha que sou besta de viajar de mão abanando?

Ele deu uma olhada ao redor e, satisfeito que apenas Lucas e Márcio estavam à distância de ouvir, baixou ainda mais a voz, quase um sussurro áspero.

— Trouxe um equipamento. Um transceptor, o melhor que consegui montar com as peças que eu guardava. Pequeno, mas potente. E uma antena dobradiça. — Seus olhos brilharam com um orgulho de técnico. — Para continuar a receber as respostas. Aquilo que vocês mandaram… o primeiro sinal, os dados… chegou longe. Muito longe.

Ele fez uma pausa dramática, engolindo em seco.

— Oropa.

A palavra pairou no ar poeirento entre eles, carregada de um significado imenso. Não era apenas uma confirmação de que a mensagem fora ouvida. Era a prova de que a denúncia havia atravessado o oceano, alcançado redes de solidariedade, talvez a imprensa internacional, grupos de direitos humanos. O arquivo das sombras do Coronel Sabará tinha eco.

Lucas, que se aproximara, sentiu um arrepio. A fuga, o risco, o roubo dos documentos — tudo aquilo ganhava uma dimensão nova, real. Eles não estavam sozinhos numa bolha de resistência. A história que estavam tentando contar tinha encontrado ouvidos do outro lado do mundo.

— Europa… — repetiu Nelsinho, num sussurho reverente. Então, a urgência retornou. — Isso é incrível, Zé. Mas não podemos ficar parados aqui. Vamos. Vamos te levar para um lugar seguro.

Nelsinho e Lucas carregaram a pesada mala preta — agora um tesouro ainda mais precioso — para o baú do caminhão. Márcio ajudou Zé Lopes a subir para a cabine, onde o velho pareceu murchar, a adrenalina da fuga dando lugar a uma fadiga profunda.

— O equipamento… tem que ficar seco… e escondido — murmurou Zé, já quase dormindo em pé.

— Vai ficar, seu Zé — garantiu Lucas, fechando a porta. — Vai ficar bem escondido.

O caminhão de Nelsinho partiu, deixando para trás o barulho da rodovia. Agora, rumo à Rua Maranguape, ao porão secreto de Alice, eles carregavam não apenas um homem perseguido, mas um frágil elo com o mundo exterior, uma prova viva de que sua luta, contra todas as probabilidades, estava sendo ouvida. A fuga de Zé Lopes não era apenas uma retirada; era um avanço. A notícia tinha ido para a Europa. E, graças à mala preta, as respostas ainda poderiam vir.

O caminho de volta à Lapa, com Zé Lopes agora seguro no caminhão, foi preenchido por sua história, contada entre cochilos e acessos de clareza nervosa.

— Depois que mandei a primeira fornada… os dados iniciais, o recorte do dossiê… fiquei colado no rádio — ele contou, a voz fraca contra o ronco do motor. — Dias. Só o chiado, aquele ruído branco que enche a cabeça e esvazia a esperança. Até que… um dia. Uma voz. Não era português. Parecia francês, ou talvez holandês… algo assim. Cantava nas ondas, distante, mas clara. Uma mensagem codificada, eu aposto. Alguém tinha ouvido.

Seus olhos, velhos e cansados, brilharam por um instante. Mas logo se apagaram.

— Depois disso… nos dias seguintes, as coisas começaram a falhar. O rádio engasgava, a transmissão era cortada por interferência pesada, não natural. E uma noite, escuto bem no fundo, no meio de um ruído… uma voz em português, clara como água: 'Senhor, acredito que é Barbacena, senhor!' — Zé Lopes imitou a voz, um tom burocrático e alarmado que fez o sangue de Lucas esfriar. — Era eles. Localizando o sinal. Triangulando. Foi quando eu saquei. Peguei o equipamento essencial, joguei o resto no poço, e a Tonha me escondeu até arranjar essa carona.

O relato confirmava o pior: a perseguição era ativa, tecnológica e implacável.

Enquanto isso, um perigo paralelo se materializava no Centro. Seu Martinho, retornando à sua distribuidora para checar o negócio e esconder uma cópia do dossiê, encontrou algo perturbador. No chão, perto da porta dos fundos, jazia um envelope branco simples, sem selo, provavelmente enfiado por baixo.

Com o coração pesado, ele o abriu. Dentro, uma folha de papel datilografada, com uma mensagem curta e eletrizante:

"Eu sei quem vocês são e o que vieram fazer no clube militar. Rastreei até essa loja. Preciso falar com Ana. Estarei dia 23 às 22h no cais do porto, ao lado do armazém 7. Não avise os outros. Ass. Rafael"

Martinho não conhecia nenhum Rafael. Mas Ana… ele sabia muito bem quem era. A garota quieta, de olhos observadores, que estava no centro daquele turbilhão. Sem hesitar, trancou a loja e, com o envelope queimando em seu bolso, dirigiu-se de volta ao sobrado do Correio Matutino.

A redação estava em plena operação de dispersão quando ele entrou. O clima era de exaustão concentrada. Martinho foi direto até Ana, que ajudava Carlos a organizar as últimas cópias.

— Menina — disse ele, baixinho, seu rosto sério. — Alguém deixou isso na minha loja. É pra você.

Ana pegou o envelope, uma pontada de apreensão no estômago. Leu o bilhete uma, duas vezes. Seu rosto, normalmente tão controlado, passou por uma rápida sucessão de emoções: surpresa, reconhecimento, medo, e então uma resignação calculada.

Todos na sala pararam para olhar. O silêncio que se seguiu foi quebrado pela voz clara de Ana.

— É do Rafael — ela anunciou, deixando o papel sobre a mesa para que os outros vissem. — Meu irmão.

O ar na redação, antes carregado de desconfiança total, agora se encheu de um tensionamento diferente — ainda perigoso, mas entrecortado por um fio de esperança profunda e uma dívida de vida.

Ana pegou o bilhete novamente, seus dedos traçando o nome "Rafael". Um tremor leve, de emoção contida, percorreu sua mão. Seu rosto perdeu toda a rigidez defensiva, revelando por um instante a jovem assustada e grata que havia sido no corredor do Galeão.

— Ele rompeu com a máquina, aquele dia no Galeão. Ele nos ajudou e ficou dentro para nos proteger.

Todos os olhos estavam nela. Ela respirou fundo, contando a história que poucos sabiam em seus detalhes.

— No Galeão… quando ele me viu, achou que eu era só uma estudante traidora, pronta para ser presa. Quando percebeu que eu era o contato da resistência… foi como se o chão tivesse sumido para os dois. — Ela fez uma pausa, o peso daquela revelação ainda fresco. — Ele me tirou dali. Disse que era uma armadilha do DOI. Que estavam usando encontros como isca para limpar a área. E ele… ele era a isca militar. Acreditavam que ele era leal, e era, mas não contra a própria irmã.

Ela olhou para o bilhete, como se pudesse ver através do papel.

— Ele nos levou até uma saída dos fundos, pela área de carga. Distraiu seus próprios homens, mentiu para seus superiores. Deixou-nos ir com uma ordem: ‘Some. E não confie em ninguém.’ E ele ficou. Porque se desaparecesse, nos caçariam através dele.

Laura arregalou os olhos. — Ele te salvou. E se queimou por você, ficando dentro do vespeiro.

— Salvou — confirmou Ana, a voz firme novamente. — E agora… ele sabe do que fizemos no clube. Rastreou a loja do Martinho. E quer falar comigo. Se ele está arriscando contato assim, depois de dias… é porque tem algo relevante para falar.

A revelação transformou "Rafael" de uma potencial ameaça em uma aliança poderosa, íntima e agonizante. Um oficial de inteligência que já havia demonstrado sua lealdade final à irmã, operando agora como uma possível dupla face dentro do próprio aparato. Era um trunfo além de qualquer sonho. Mas também era o homem mais vigiado do mundo, vivendo uma mentira diária.

Carlos raciocinou em voz alta, o respeito misturado à cautela: — Ele está dentro. Tem acesso a informações que nós nunca teríamos. Pode saber dos planos do Sabará, do rastreamento do Zé Lopes, de operações iminentes contra nós. Mas… também está sob vigilância constante. Este encontro é um risco colossal para ele.

Madame Satã assentiu lentamente, o cigarro soltando um anel de fumaça que subiu na luz fraca. — Um homem que caminha sobre uma lâmina para proteger o que ama. Se ele pede para você ir sozinha, é porque acredita que qualquer companhia aumentaria exponencialmente o risco de ambos serem flagrados. É um ato de proteção, não de controle.

— Não é armadilha — disse Ana, com a convicção de quem olhou nos olhos do irmão e viu o pavor e a determinação. — Ele já cruzou a linha por mim. Este bilhete é ele estendendo a mão de novo, do outro lado do abismo.

Lucas, pragmático, colocou a questão operacional: — Então o plano do cais se mantém. Ana vai. Sozinha, como ele pede. Mas a gente vai estar lá. Não perto, como guarda-costas. Mas com binóculos, cobrindo todas as rotas de fuga e de aproximação. Se for uma armadilha deles, e não dele, a gente precisa ter um aviso para poder sumir com o dossiê.

Paulo, que vira de perto a transformação agonizante de Rafael no Galeão, falou com uma seriedade profunda: — Ele disse ‘não confie em ninguém’. Mas ele está confiando em você. E você confia nele. É um laço que vai além de qualquer plano. Vá. Mas leve um sinal. Algo discreto. Se você sentir que algo está errado, que não é ele, ou que ele está sob coação… nos avise.

A ideia era boa. Combinaram um sinal simples: se Ana tirasse o lenço que envolvia os cabelos durante a conversa, era o aviso de que a coisa estava ruim e eles deveriam evacuar a redação imediatamente.

O plano foi refeito. O encontro no cais do porto na quinta-feira às 22h não era mais apenas um risco ou uma oportunidade tática; era um reencontro carregado de uma dívida, um risco compartilhado e a possibilidade angustiante de uma despedida. Enquanto as cópias do dossiê continuavam a ser feitas e escondidas, uma nova frente, profundamente pessoal e perigosíssima, se abria: o contato com um homem que vivia no coração da escuridão, e que talvez pudesse lhes dar não apenas informações, mas um aviso que salvaria suas vidas.

A rede de segredos que eles estavam desvendando agora puxava um fio de esperança direto para dentro do próprio inimigo. Tudo dependia, mais uma vez, de um encontro silencioso entre dois irmãos em um cais escuro — mas agora, ambos sabiam exatamente em que lado da guerra cada um estava, e o preço terrível que já haviam começado a pagar.

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