segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XIV)

A tensão no porão era elétrica quando Anita — Ana — despejou suas descobertas sobre a mesa, ao lado do mimeógrafo silencioso. O ar, já carregado de fumaça e adrenalina, pareceu ficar ainda mais pesado, como se os próprios fantasmas que ela desenterrou tivessem descido com ela.

Ela contou tudo, com uma voz que começou controlada, mas que se enchia de um tremor contido ao descrever a sorte de Isabela Sabará e o depoimento da escrava Jurema. Lucas leu trechos em voz baixa, sua face empalidecendo. Laura cerrou os punhos até as unhas cavarem sulcos em suas palmas.

Mas foi quando Ana chegou ao processo do banco e ao depoimento de João "Faca" que o clima mudou. Ela passou a folha com a cópia da confissão, sua letra tensa transcrevendo as palavras brutais.

"Ouçam isso," disse Carlos, pegando a folha. Sua voz, treinada para a leitura seca de processos, soou estranhamente rouca ao dar vida àquelas linhas: "...A ordem era não deixar testemunha... Zé Bigode acertou o peito dele com a garrucha... Enterramos o corpo perto das pedras... Me pagou cem mil-réis e uma garrafa de cachaça..."

Um silêncio absoluto caiu sobre o porão. O som do gotejar de uma infiltração parecia um metrônomo marcando o fim de uma era.

Foi Madame Satã quem quebrou o silêncio. Ela não disse nada. Soltou um único som: um assobio longo, baixo e carregado de um respeito quase profano pelo tamanho da podridão.

"Isso," ela disse finalmente, o dedo indicador batendo com força na folha, "isso é o coração da coisa. Não é só um crime de sangue. É um crime de propriedade. Um homem branco e rico mandando matar um imigrante trabalhador para roubar um banco. Em 1968, isso aqui..." ela fez um gesto que abarcava toda a sala, a Lapa, o regime, "...isso tudo foi construído em cima desse exato tipo de ossada. Eles se vestem de autoridade, de moral, de família tradicional. E o avô do coronel era um bandido que matou por dinheiro e afundou a prova no rio."

Ela olhou para Ana, e seu olhar tinha uma nova camada de avaliação. "Você não trouxe só segredos, garota. Você trouxe um esqueleto. O esqueleto que sustenta a cadeira do poder deles. Com isso, a gente não derruba só o coronel. A gente mostra que o trono dele é feito de osso de homem pobre e saca de café podre."

A euforia, porém, foi imediatamente temperada pela realidade que Ana descreveu a seguir: a história do Desembargador Cantareira, o suborno, e o prazo de validade da mentira.

O rosto de Madame Satã perdeu a expressão triunfal. "Merda. Esse funcionário, agora que viu isso," ela apontou para os papéis, "e pensa que um desembargador está interessado... ele é um risco ambulante. Precisamos fechar esse ciclo. Precisamos materializar o desembargador, buscar as cópias e garantir o silêncio dele com mais grana e medo."

Foi então que os olhos dela pousaram em Carlos, ainda vestindo a roupa remendada do juiz fugitivo. "Você. Estudante de Direito. Você vai ser o estagiário. Vai lá amanhã, com uma carta bonita do seu 'chefe', pegar o material e passar mais um dinheiro pra aquele burocrata fumar até esquecer o próprio nome."

Carlos engoliu seco, mas assentiu. A magnitude da descoberta tornava o risco secundário.

"E o dinheiro extra?", lembrou Lucas. "O suborno maior?"

Madame Satã soltou uma risada curta. "Ainda bem que esses ratos viciados não param de cheirar. O mensageiro dos caveiras volta hoje. Vamos fazer um novo acordo. Ele vai nos dar a grana... em troca do nosso silêncio sobre o serviço sujo que ele faz para o homem que quer nos pegar. Poético, não?"

O plano se desenhou, arriscado e impiedoso. E no centro de tudo, sobre a mesa de madeira lascada, jazia a confissão de João "Faca". Não era apenas uma prova. Era um espelho. E eles estavam prestes a esfregá-lo no rosto do coronel Sabará até que seu próprio reflexo o estrangulasse.

A cena no porão ganhou um novo centro de gravidade: a pequena bancada de Paulo, iluminada por uma luminária de mesa com um abajur verde. O caos de ferramentas, pedaços de borracha e lixas tornou-se um santuário de precisão forjada.

Inspirado e sob a pressão do plano, Paulo trabalhava com uma concentração que silenciava o mundo ao seu redor. As mãos que antes pareciam desajeitadas agora eram instrumentos estáveis. Ele escolheu um bloco de borracha de sapato velho, de densidade perfeita, e começou a lixar uma superfície lisa.

"Desembargador Augusto Leopoldo Cantareira," ele murmurou, repetindo o nome que haviam inventado, enquanto desenhava a lápis, com letras miúdas e impecáveis, a inscrição em um círculo. Não era apenas uma cópia; era uma criação. Ele estudou os carimbos oficiais que Madame Satã conseguira de fontes obscuras, entendendo a estética do poder: as serifas, o espaçamento, a leve assimetria que denotava algo feito à mão, mas por um artesão respeitável.

Com uma goiva finíssima, ele começou a escavar o negativo das letras. Cada pequeno sulco era um risco calculado, cada curva uma decisão. O suor escorria por suas têmporas, mas suas mãos não tremiam. O som da ferramenta cortando a borracha era o único ruído no porão, um shhhk, shhhk hipnótico.

Enquanto isso, em outra folha de papel, ele praticava a assinatura. "Precisa ter autoridade e um pouco de cansaço," ele explicava em voz baixa, mais para si mesmo. "Alguém que já assinou mil documentos." Ele criou uma letra "A" grandiosa, com um loop arrogante, seguida de um "L" que se arrastava, terminando em um "Cantareira" cheio de voltas e um traço final decidido que cortava o sobrenome. Era uma assinatura que ocupava espaço, que demandava respeito.

Madame Satã observava por sobre seu ombro, um raro brilho de admiração genuína em seus olhos. "Você nasceu para isso, garoto. Está dando forma aos nossos fantasmas."

Após uma hora de trabalho minucioso, Paulo encaixou o disco de borracha talhado em um cabo de madeira improvisado. Pegou um almofadinha de tinta preta, aplicou-a com cuidado uniforme sobre o carimbo e, com uma respiração presa, pressionou-o contra uma folha branca.

PLIM.

Ele levantou o carimbo. Lá estava, em preto sobre branco, perfeito e convincente:

GABINETE DO DESEMBARGADOR
AUGUSTO LEOPOLDO CANTAREIRA
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DA GUANABARA

Ao lado, ele praticou a assinatura com uma caneta tinteiro que Alice havia "emprestado" de um cliente distraído anos atrás. A tinta azul escura fluía, criando a rubrica poderosa e cansada do desembargador fantasma.

"Está pronto," anunciou Paulo, erguendo os trabalhos. Não havia triunfo em sua voz, apenas a certeza sólida do trabalho bem feito. "O carimbo e a assinatura. Só precisamos do papel timbrado correto para a carta."

Alice já estava à frente. "Deixe comigo. Tenho um contato numa gráfica que faz... trabalhos discretos. Conseguimos uma folha de papel oficial em branco, dessas que sobram. Por um preço."

Enquanto isso, Carlos estava sendo medido por Alice, que remendava e ajustava o terno cinza do juiz fugitivo. O tecido era bom, mas o corte estava desatualizado. Alice, com seus alfinetes na boca, trabalhava para dar uma aparência mais moderna e menos poeirenta. "Vai ficar um figurão," ela garantia, embora Carlos parecesse um adolescente vestido para uma festa de formatura de um parente distante.

O plano estava tomando forma física. O carimbo de Paulo era a peça central que daria credibilidade à farsa. Era a materialização da mentira, um pequeno objeto de borracha e tinta que carregava o peso de um título inexistente, pronto para autenticar uma verdade muito real e muito suja que derrubaria um homem poderoso.

A falsificação não era um crime, na mente de Paulo naquele momento. Era arte. Era justiça. E ele era seu artífice.

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