A lógica era de aço frio, forjada na urgência do perigo. O sobradinho de Alice e o porão de Madame Satã, outrora um santuário, havia se tornado uma armadilha prestes a se fechar. A vigilância, o carro do Globo, a ficha do funcionário corrupto que poderia cantar a qualquer momento — era uma questão de tempo até uma operação convergir para a Rua Maranguape.
"O alvo sou eu," disse Madame Satã, sem nenhum traço de medo, apenas a constatação de um fato tático. "Eles sabem que sou um ponto fixo. A casa da Alice é conhecida. Não podemos detonar a bomba daqui. Vão nos pegar com a mão no gatilho."
A decisão foi unânime e dolorosa: tinham que partir. Abandonar a fortaleza subterrânea que os abrigara. Mas não para se esconder. Para atacar de um lugar novo, inesperado.
"Começamos por Isabela", anunciou Lucas, suas anotações sobre a internação já à mão. "A história dela é a mais humana, a mais capaz de causar repulsa em qualquer um que leia. Mas precisamos de mais. Precisamos do prontuário completo, de laudos, de qualquer coisa que mostre a farsa, que prove a violência do marido. Precisamos ir à fonte."
"Barbacena," sussurrou Ana. A palavra soou como um túmulo distante.
Madame Satã assentiu. "O manicômio. O cemitério das mulheres inconvenientes. Se há algo que enterrou Isabela de vez, está lá." Ela não sugeriu; decretou. Era uma jogada ousadíssima. Sair do Rio, da proteção relativa dos becos conhecidos, e invadir o próprio santuário do horror que buscavam expor.
Mas como? Os olhos de Madame Satã pousaram em um vulto lá fora, visto pela fresta da porta dos fundos: um garoto magricela, de chinelos de dedo, lutando para erguer uma pipa de papel de seda contra a brisa da tarde.
Ela pegou um pedaço de papel, rabiscou algumas linhas com uma letra angular e rápida, e amarrou-o com um elástico em volta de uma nota de dinheiro. Abriu a porta só o suficiente.
"Ei, soldado," chamou ela, sua voz perdendo toda a aspereza, tornando-se quase maternal. O garoto se virou, desconfiado. "Tá afim de ganhar uma grana pra doce? Leva esse recado pra 'Oficina do Seu Nelsinho', na Rua do Lavradio. Entrega na mão dele. Nem pra mulher dele, só pra ele. Pode fazer?"
O garoto olhou para a nota, depois para o rosto sério de Madame Satã. Assentiu, rápido, pegou o pacote e saiu correndo como um raio, a pipa abandonada no chão.
Cerca de uma hora mais tarde, enquanto o grupo recolhia o último equipamento vital — o mimeógrafo foi desmontado, as provas principais divididas entre várias bolsas —, uma batida pesada e ritmada ecoou na porta dos fundos. BUM. Bum-bum. BUM.
Madame Satã abriu. Enfiado na moldura estava um homem grande como um armário, de ombros tão largos e peludos que pareciam usar a cameta xadrez por cima. Tinha um rosto de boi, tranquilo e poderoso, com olhos pequenos e inteligentes.
"João," disse Madame Satã, um sorriso raro de genuíno afeto tocando seus lábios.
"Madame," o homem respondeu, a voz um rosnado baixo e profundo. Seus olhos avaliaram o grupo de jovens atrás dela, sem julgamento, apenas registro. "O caminhão tá pronto. É o de transporte de móveis, tá com o nome da firma pintado e tudo. Leva seis na cabine apertado, mas dá. A carga já tá acomodada."
Ele não perguntou para onde, ou por quê. A lealdade a Madame Satã era um fato geológico, não sujeito a questionamentos.
"É pra Barbacena, Seu Nelsinho?", arriscou Carlos, ainda segurando a pasta com as cópias.
O homem — Nelsinho — virou seu olhar pesado para o estudante. "É pra onde a patroa mandar," disse, simples. "O caminho eu conheço. Já levei carga pra Minas mais vezes que tenho cabelo no peito. A viagem é longa. Melhor ir antes que escureça de vez."
Era a saída. Arriscada, incerta, mas uma saída com movimento, com direção. Eles não estavam fugindo. Estavam se reposicionando para o ataque final. Iam direto ao coração do pesadelo de Isabela Sabará para desenterrar a prova final que amarraria o nome da família à crueldade e à loucura institucionalizada.
Com um último olhar ao porão que fora seu quartel-general — o altar danificado, as sombras familiares, o cheiro de cachaça e tinta —, o grupo seguiu Seu Nelsinho pela porta dos fundos, subindo para a luz fraca do fim de tarde na Lapa. Um caminhão de mudanças azul e vermelho, com "Mudanças e Carretos Nelsinho - Confiança e Preço Justo" pintado na lateral, esperava com o motor já roncando.
Eles estavam deixando o esconderijo. Mas levavam consigo o arquivo. E a fúria sagrada de Maria Navalha, cuja lâmina agora parecia apontar firmemente para as estradas de Minas Gerais.
A viagem foi um túnel de asfalto, vibração e ansiedade contida. Dentro da cabine abafada do caminhão, o cheiro de gasolina, tabaco de Nelsinho e suor misturava-se ao das provas amaldiçoadas que carregavam. A paisagem urbana deu lugar ao verde escuro da serra, depois aos campos escuros de Minas Gerais, cortados apenas pelos faróis do caminhão e pela lua ocasional.
A parada no posto de caminhoneiros foi um interlúdio surreal. Luzes ofuscantes dos faróis, cheiro de óleo queimado e comida gordurosa. Comeram em silêncio, vigiados pelos olhos curiosos e desconfiados de outros caminhoneiros. Eram um grupo estranho: uma lenda travesti, uma cafetina aposentada, quatro jovens assustados e um gigante silencioso. Ninguém perguntou nada. Nas estradas, sabedoria era não procurar encrenca.
De volta ao caminhão, o cansaço físico e emocional os derrubou. Adormeceram em posições desconfortáveis, cabeças batendo contra os vidros, ao som do ronco constante do motor.
Foi nesse estado de exaustão profunda que Ana adentrou o sonho.
Ela estava em um jardim, mas um jardim doente. A grama era alta e amarelada, as roseiras cresciam descontroladas, seus galhos retorcidos como garras, as flores murchas e escuras. O céu era de um cinza perolado, sem sol, sem nuvens.
E uma mulher caminhava ao seu lado. Usava um chapéu panamá elegante, levemente inclinado, e seu vestido tinha as cores do sonho: vermelho vivo e branco imaculado, que pareciam brilhar com uma luz própria na paisagem sombria. Era Maria Navalha, mas não como a figura imóvel no altar. Era uma presença viva, real, seus passos fazendo um som suave sobre a terra seca.
"Você veio até a fonte," disse a mulher, sua voz era melodiosa, mas com uma ressonância de metal afiado. "É bom. A indignação precisa de raízes para crescer forte."
Ela parou diante de um trecho de terra onde a grama parecia mais revolvida, irregular. Não havia lápides, apenas um ar de sofrimento preso no solo.
"Aqui," ela continuou, seu gesto abarcando o jardim inteiro e além, "são enterradas as mulheres que se indignam. As Isabellas, as Beatrizes, as Anas, as Marias. As que disseram 'não'. As que não se dobraram. As que foram chamadas de loucas, de histéricas, de prostitutas, de hereges. O solo de Barbacena é fértil com a nossa raiva."
Ana sentiu um nó na garganta, um misto de tristeza e de um orgulho feroz.
"A prova que você busca para a sua irmã do passado," disse a mulher de chapéu, virando-se para encarar Ana diretamente. Seus olhos eram profundos como poços noturnos. "Não está nos papéis dos burocratas de jaleco. Está no porão. Uma caixa marrom, com letras azuis desbotadas. Ela guarda a verdade que os homens não puderam apagar."
Antes que Ana pudesse perguntar mais, um vento súbito varreu o jardim, carregando um perfume intenso e doce de rosas frescas, totalmente oposto ao cheiro de podridão do lugar. O aroma era tão forte, tão real, que a arrancou do sono.
Ana acordou de repente, com um sobressalto, na cabine escura e abafada do caminhão. O ronco do motor era o mesmo, Paulo dormia encostado em seu ombro, Lucas ressonava ao lado. Mas o cheiro de rosas ainda estava ali, envolvendo-a por mais alguns segundos, antes de se dissipar no ar viciado da cabine.
Seu coração batia rápido. Não era apenas um sonho. Era um mapa.
Ela tocou o ombro de Madame Satã, que estava acordada, olhando fixamente para a estrada iluminada pelos faróis.
"Madame," sussurrou Ana, sua voz rouca pelo sono e pela emoção. "Quando chegarmos... precisamos achar o porão. Há uma caixa marrom com letras azuis. É onde está a verdade sobre Isabela."
Madame Satã virou o rosto, seus traços iluminados pelos painéis verdes do caminhão. Ela não questionou. Apenas estudou o rosto de Ana, ainda impregnado da certeza do sonho, e assentiu uma vez, solene.
"O oráculo falou," ela murmurou, voltando a olhar a estrada que cortava a noite. "Então é no porão que cavaremos."
A busca por Isabela tinha agora um destino preciso. E Ana sabia, com uma fé que vinha das entranhas, que a própria Isabela — ou a força que sua história gerara — estava os guiando. A viagem não era mais apenas uma fuga. Era uma peregrinação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário