quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIX)

Os Anos de Chumbo desceram sobre o Brasil como uma bigorna. O AI-5 rasgou a Constituição, e com ela, qualquer véu de legalidade. Os porões do DOPS, do DOI-CODI e de tantas outras siglas do horror encheram-se de vozes silenciadas a socos, choques e afogamentos. A lista de desaparecidos cresceu como uma ferida no mapa do país. Mortos sem sepultura, vidas truncadas no limiar da juventude, famílias dilaceradas pelo não-saber. A dor não foi um acidente; foi política de Estado. O sofrimento, um instrumento.

E essa sede de poder, essa crueldade metódica que usou o Estado como máquina de triturar gente, não nasceu em 1964. Ela tem raízes mais antigas, tão antigas quanto a colonização deste solo. É a mesma sede que afogou o bebê na senzala da fazenda. A mesma que trancou mães em sanatórios. A mesma que girou Rodas dos Esquecidos, tratando vidas como mercadoria para limpar linhagens. É a herança do latifúndio que engoliu terras e vidas, da casa-grande que sempre buscou controlar a senzala, a rua, o quarto, o pensamento.

O fantasma desses homens — os coronéis, os capitães-do-mato, os doutores de cartola e chicote, os generais de óculos escuros — não assombra apenas os arquivos empoeirados. Ele se materializa em cada grito de "onde está?" nunca respondido. Em cada tentativa de apagar a história sob o pretexto da "ordem". Em cada novo nome poderoso que sobe sobre os ossos dos esquecidos. Ele é tenaz. Insiste.

Mas nas sombras que esses fantasmas projetam, outras luzes teimosas não se apagaram. As luzes reais, de carne e osso, cujos nomes o regime tentou apagar, mas que a memória teima em gravar a fogo:

O espírito de Iara Iavelberg, jovem e corajosa, psicóloga que sonhava com liberdade e foi levada pela violência do Estado, vive em quem não abaixa a cabeça.

O de Vladimir Herzog, jornalista que acreditava na força da palavra e cuja morte forjada não conseguiu matar a verdade, ecoa em todo profissional que denuncia a opressão.

O de Alexandre Vannucchi Leme, estudante de geologia torturado até a morte, aquece a resistência de quem sabe que o futuro pertence aos que lutam.

O de Helenira Rezende, jovem militante, e de Santo Dias da Silva, operário e líder comunitário, cujas vidas foram ceifadas pela repressão, ressoa em cada estudante e trabalhador que levanta a voz.

O de Dinaelza Coqueiro, militante da VPR, e de tantas outras mulheres cuja coragem foi silenciada à força, personifica a fúria indomável dos que são duplamente marginalizados.

O de Eduardo Collen Leite, "Bacuri", e de Antônio Carlos Bicalho Lana, "Bicalho", jovens idealistas desaparecidos, é o alicerce da solidariedade que nunca esquece seus filhos.

E o de Madame Satã — o João Francisco dos Santos real —, com sua existência inteira de desafio às normas, lembra que a resistência também é identidade, é afeto, é a celebração da vida em toda a sua complexidade.

E até o espectro coletivo dos que confessaram sob tortura, dos que desapareceram sem deixar rastro, das vítimas anônimas da Vala de Perus, segue um lembrete de que os segredos dos opressores, por mais bem guardados, um dia clamam por justiça.

A luta que foi travada nas ruas, nas redações clandestinas, nas celas de tortura, não terminou no silêncio imposto. Foi semente. Uma semente plantada no asfalto rachado e no solo manchado de sangue. Brotou na Comissão Nacional da Verdade, nos memoriais de pedra com nomes ausentes, nos arquivos digitalizados de quem não quer o esquecimento. Brota cada vez que um jovem levanta um cartaz com o rosto de um desaparecido, que uma mãe das praças públicas exige respostas, que um artista conta a história proibida.

A maldade e a injustiça mudam de roupa, de discurso, de sigla. Mas a sua essência — a vontade de dominar, de calar, de apagar — é a mesma. Contra ela, nosso antídoto é a memória obstinada. É saber que todos esses nomes existiram. Que suas vidas foram reais, seus sonhos foram concretos, seu sangue foi derramado. Que o amor e a amizade resistiram, mesmo no cárcere.

O fascismo pode ser um fantasma insistente, mas nós somos o fogo que não se deixa apagar — um fogo alimentado pela lenha de todas as vidas que foram roubadas e que, com seu exemplo silencioso ou seu grito abafado, nos sussurram, através dos tempos:

Lute. Lembre. Não tenha medo. Nós estamos contigo.

FIM.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLVIII)

A noite de 15 de dezembro de 1968 era uma coisa viva e hostil. O ar, antes carregado do calor úmido do verão, parecia agora gelado pela nova lei que pesava sobre a cidade. Ana caminhava com uma determinação que tentava disfarçar de despreocupação. O vestido curto, os mocassins, o rabo de cavalo balançando. Mas seus olhos varriam cada sombra.

Seu destino era o Box 777. Conforme se aproximava, viu o Opala cor de creme, imóvel, apenas um fio de fumaça de cigarro traindo a presença dentro.

Foi então, no último quarteirão deserto antes do cais, que um cheiro forte e doce de rosas invadiu suas narinas. Um perfume denso, totalmente fora de lugar naquele ar salgado e podre. Ela virou a cabeça, instintivamente.

Pelo canto do olho, na penumbra de um portal arruinado, viu um vulto. O vestido vermelho e branco, o cabelo preto enrolado em um coque perfeito da virada do século. Era Bárbara dos Prazeres, a Bruxa do Arco do Teles, tão nítida quanto na primeira noite. Seus lábios não se moveram, mas uma voz suave, clara e maternal ecoou diretamente dentro da mente de Ana, sobrepondo-se ao ruído da cidade:

"Não tenha medo, eu estarei contigo."

A visão durou um piscar de olhos. Quando Ana piscou, o portal estava vazio. Mas o cheiro de rosas persistiu, envolvendo-a como um véu protetor e sinistro. O coração acelerou, mas não de pânico — de um reconhecimento profundo. Era ela: Maria Navalha: mas o aviso não era de segurança, era de despedida.

Ela entrou no Opala. O abraço com Rafael foi longo, desesperado, carregado de tudo o que não poderia mais ser dito. Quando ele começou a falar, sua voz era urgente:

— Ana, vocês têm que sumir. Estão no seu encalço…

Foi quando os faróis altos cortaram a escuridão atrás deles, iluminando o interior do carro como um holofote. Uma viatura da polícia parou a poucos metros, bloqueando a saída. As portas se abriram. Quatro policiais desceram, movimentos rápidos e profissionais. Não eram homens comuns; eram agentes de uma operação suja. Lanternas de mão cegaram Ana e Rafael. As pistolas já estavam desembainhadas.

Um deles, ao se aproximar e reconhecer o rosto iluminado pela luz interna, não hesitou. Sua ordem foi um sussurro gutural: "Traidor."

O primeiro disparo foi um estampido seco que explodiu o silêncio do cais. Atingiu Rafael em cheio na testa. O corpo dele sacudiu violentamente para trás, um jorro escuro salpicando o pára-brisa, o couro do banco e o rosto de Ana.

O grito dela não foi um som humano; foi o rasgar do próprio ar. Um grito dilacerado, misturado ao sangue quente do irmão que agora manchava seu vestido, sua pele, sua vida.

Ela nem viu o segundo policial se aproximar do seu lado da janela. O segundo disparo entrou pelo lado esquerdo do seu peito, com um impacto surdo que arrancou o fôlego e toda a força do seu corpo. Não houve mais dor, apenas um desfalecimento súbito, como se o mundo desligasse. Ela caiu para o lado, contra a janela fria, a visão escurecendo rapidamente, o rosto ainda voltado para o irmão morto. O cheiro de rosas, inexplicavelmente, se misturava ao de pólvora e sangue.

A algumas dezenas de metros, escondidos atrás de uma pilha de dormentes, Laura e Lucas assistiram à cena. Laura não conseguiu se conter. Um grito gutural, "NÃO!!!", escapou-lhe dos lábios antes que Lucas pudesse tapar sua boca.

Foi o suficiente. Dois guardas que já estavam posicionados em flanco, esperando por qualquer reação, surgiram das sombras atrás deles. Não houve luta. Duas coronhadas precisas e brutais atingiram as nucas de Laura e Lucas. Seus corpos caíram, moles, no chão de cascalho. Foram rapidamente arrastados e jogados no porta-malas de uma Variant azul que surgiu de uma rua lateral. O carro desapareceu na noite.

Carlos e Paulo, vindo pelo Caju, ouviram os tiros e o grito de Laura. A visão da viatura e dos corpos sendo arrastados os paralisou por um segundo de horror. Instinto de sobrevivência falou mais alto: tinham que avisar os outros, tinham que fugir. Viraram-se e correram desesperadamente em direção à Lapa.

Não conseguiram nem 500 metros. De duas ruas laterais, mais duas viaturas surgiram, cortando seu caminho. Homens saltaram, armas em punho. A luta foi breve e brutal. Foram amarrados, amordaçados com panos ásperos e jogados no fundo de uma das viaturas.

O carro não seguiu para um quartel. Dirigiu-se a um ponto escuro e abandonado do cais, longe do Box 777. Lá, sob as estrelas indiferentes de dezembro, Carlos e Paulo, ainda conscientes, com os olhos arregalados de terror, foram arrastados para a beirada. Um empurrão seco, seguido de outro. Dois splash abafados se perderam no som das ondas batendo contra os pilares de madeira podre. As águas escuras da Baía de Guanabara os engoliram, levando consigo o dossiê que carregavam na memória e a história que juraram contar.

A Variant azul misteriosamente pegou fogo em frente ao cemitério do Caju. Quem visse as centelhas subindo para o céu jamais poderia imaginar que elas carregavam em si o amor de dois jovens que pouco tempo tiveram para vivê-lo.

Dentro do Opala cor de creme, o cheiro de rosas persistia, um último aroma de um mundo que tentara, em vão, proteger seus escolhidos. O sangue de Ana e Rafael escorria lentamente, unindo-se no couro do banco. A promessa de Maria Navalha ecoava no silêncio mortal: "Não tenha medo, eu estarei contigo."

Agora, eles estavam todos juntos. No silêncio, no sangue e na eternidade que se anunciava: Ana, Rafael, Laura, Lucas, Paulo e Carlos, Maria Navalha, Zé Pilintra, Bárbara dos Prazeres. O Arquivo das Sombras fora fechado a tiros, consumido no fogo e afogado na baía. A resistência, naquela noite, fora silenciada. Os anos de chumbo começavam, de fato, com o estrondo de pistolas e o silêncio profundo das águas escuras.

À meia-noite de 16 de dezembro de 1968, um relógio em algum lugar da Lapa badalou doze vezes. O som ecoou no sobrado vazio do Correio Matutino como um dobre de finados.

Madame Satã, sentada em sua cadeira de sempre no canto escuro da redação, sentiu uma pontada aguda e profunda no peito. Não era física; era uma facada de gelo na alma, um rompimento brutal de um fio que ela nem sabia que ainda a prendia a algo tão frágil quanto a esperança. Uma conexão, forte e quente, que havia se formado com aqueles jovens estranhos e corajosos, partiu-se.

De seu olho direito, aquele que havia visto tantas violências e misérias, rolou uma única lágrima. Pesada, lenta, carregada de séculos de dor acumulada. Escorreu pela vala profunda de sua ruga até despencar do queixo, manchando o velho roupão.

Ela não precisou de confirmação. Sabia. No silêncio da cidade sob lei marcial, o destino dos cinco chegara até ela como um eco final.

Levantou-se, um monumento de dor e decisão. Suas sandálias ecoaram no assoalho enquanto descia para o porão. Lá, Zé Lopes ainda escutava o chiado estático do rádio, Márcio verificava as últimas armas, e Alice enrolava um cigarro com mãos trêmulas. Todos olharam para ela. Viram o rosto transformado, a lágrima seca no caminho.

Sem uma palavra, Madame Satã pegou uma garrafa de pinga de cana, da forte, de um engradado no canto. Encheu quatro copos de dedo sujos e os distribuiu. Sua mão não tremia.

— É o fim — declarou, sua voz um baixo rouco que parecia vir das fundações do mundo.

Ela ergueu seu copo, olhou para o líquido âmbar, e então derramou um pouco no chão de terra batida. Uma libação para os que já haviam partido. Para os mortos da noite. Para Ana, Rafael, Laura, Lucas, Carlos, Paulo.

Depois, levantou o que restava e bebeu de um só gole, ardente, como engolindo fogo.

O álcool queimou, mas a dor não se dissipou. Ela a transformou em força. Com um ímpeto súbito, jogou o copo contra a parede, onde ele se estilhaçou. E então, com toda a força de uma dor que não podia ser contida, explicada ou perdoada, ela ergueu os braços para o teto baixo e rugiu, um grito que era desafio, despedida e invocação:

— LAROYÊ!

O grito sacudiu o porão, um chamado aos orixás, aos guias, a todas as forças das ruas e dos umbrais. Alice deixou escapar um soluço abafado, cobrindo o rosto com as mãos. Márcio e Zé Lopes baixaram a cabeça em respeito profundo, um gesto de soldados reconhecendo a queda de seus comandantes.

Mas não havia tempo para luto. A fúria de Madame Satã era prática.

— Temos que salvar nossas peles! — ela bradou, os olhos incendiados. — Eles vêm. Agora.

Ela se virou e subiu as escadas de volta à redação. Foi direto a um baú de madeira, de onde tirou sua velha navalha, a lâmina que havia cortado tanto tecido quanto carne, em defesa própria e alheia. Afiada como o dia em que foi comprada. Ela a enfiou no bolso do roupão.

Abriu a porta da frente do sobrado e saiu para a rua escura. Como ela pressentira, já havia um guarda montando vigília do outro lado da rua, um jovem recruta com ar nervoso, apoiado em sua viatura.

Ele mal teve tempo de erguer a mão para o rádio ou para a arma. Madame Satã não correu. Caminhou com passos largos e decididos diretamente até ele. O guarda, confuso com a figura imponente que surgia das sombras, hesitou por um segundo fatal.

Foi o bastante. A mão dela saiu do bolso num movimento fluido, um arco prateado que cintilou sob a luz do poste. A lâmina encontrou a garganta exposta do jovem com uma precisão cirúrgica e brutal. Um jorro escuro, um sibilo de ar que não virou grito. O guarda caiu de joelhos, depois de bruços, no asfalto.

Ela não olhou para trás.

Dentro da casa, ao som do corpo caindo, Alice, Márcio e Zé Lopes agiram. Era o sinal. Pegaram o pouco que podiam — dinheiro, documentos falsos, o transceptor essencial de Zé — e saíram pela porta dos fundos, cada um para uma direção diferente, se dissipando no labirinto da Lapa como fumaça.

Madame Satã deixou a navalha cravada na calçada, ao lado do corpo. Deu um último olhar para a fachada silenciosa do Correio Matutino. Lá dentro, ficavam as máquinas de escrever silenciosas, o mimeógrafo frio, os diagramas na parede, os restos de café. Ficava a história de afeto e amizade, os ecos dos debates, dos risos abafados, do beijo roubado no pátio. Ficava a memória dos cinco jovens que acreditavam poder iluminar as sombras com papel e tinta.

Tudo seria varrido, queimado ou esquecido.

Ela se virou e desapareceu na noite, uma sombra maior que todas as outras, carregando consigo o peso de um laroyê que soava menos como saudação e mais como um epitáfio para uma certa ideia de justiça. A luta pela justiça dos vivos e dos mortos continuaria, em outro lugar, de outra forma. Mas ali, naquela rua, naquela redação, terminava.

Com um guarda morto, um grupo dissipado e o silêncio pesado caindo sobre os restos de uma resistência que ousara sonhar alto demais para os anos que haviam chegado.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLVII)

O ar da manhã de 15 de dezembro já pesava como chumbo, carregado de um silêncio anormal que havia caído sobre a cidade desde a noite anterior. Márcio chegou antes do sol se firmar, trazendo o sustento modesto: pães ainda mornos e umas fatias finas de mortadela embaladas em papel manteiga. Mas ao se aproximar da porta surrada do Correio Matutino, seu passo hesitou.

Um papel, cuidadosamente dobrado em quatro, estava preso embaixo da porta. Não era um panfleto jogado ao vento. Tinha a precisão de uma mensagem. Ele se abaixou, os ossos rangendo, e o pegou. Desdobrou.

Letras de máquina de escrever, uniformes e impessoais, golpearam seus olhos:

PASTOR ALEMÃO. BOX 777. 21H.

O código. O sinal de emergência combinado por Rafael.

Nesse momento, Ana descia as escadas de madeira que rangiam, uma toalha enrolada como um turbante em seus cabelos ainda úmidos. Ela viu Márcio paralisado na porta, o rosto cinza.

— O que houve, Márcio? Parece que viu um fantasma! — sua voz tentou um tom leve, mas já carregava um fio de alarme.

Márcio se virou devagar, como se o papel queimasse seus dedos. Estendeu-o para ela.

— Rafael… — ele disse, a voz um rosnado grave. — Ele chamou.

Ana desceu os últimos degraus num pulo, a toalha quase se soltando. Arrancou o papel das mãos dele e leu as palavras em voz alta, clara, para que todos na sala, já despertando, ouvissem:

— "Pastor alemão. Box 777. 21h."

Ela ergueu os olhos do papel, varrendo os rostos que agora a encaravam — Carlos com os óculos na ponta do nariz, Paulo pálido, Laura e Lucas ainda com a marca dos lençóis no rosto, Alice parada na porta da copa com a cafeteira na mão.

— É hoje — anunciou Ana, a voz firme, mas com uma faísca de ansiedade no fundo. — Rafael tem notícias. E se usou o código de emergência… não são boas.

A energia do lugar congelou. O cheiro do café coando e do tabaco de Alice, antes dominantes, pareceram evaporar, substituídos por um cheiro agudo e metálico: a adrenalina, correndo como um rio subterrâneo nas veias de cada um. A pergunta pairou, não dita: Como faremos para nos encontrar com Rafael sem levantar suspeitas? Agora, com o AI-5 em vigor, a cidade era uma armadilha. Reuniões eram suspeitas. Grupos de mais de duas pessoas eram alvo. O toque de recolher não estava no papel, mas estava no ar, na forma de olhares duros em cada esquina, no súbito desaparecimento de vozes conhecidas do rádio.

Foi Madame Satã quem quebrou o gelo pesado. Ela não havia se levantado de sua cadeira no canto. Fumava, observando a fumaça subir em espirais lentas. Sua voz surgiu, rouca e cheia de uma autoridade que brotava da terra.

— Vocês vão. Todos. Mas divididos.

Todos se viraram para ela.

— Ana vai encontrar o Rafael. Só ela. É o combinado. Mas ela não vai sozinha pela cidade. Laura vai com Lucas — ela apontou o cigarro para o casal. — É menos suspeito um casal de namorados apaixonado passeando de noite, mesmo numa noite dessas. Segurem as mãos, finjam que o mundo lá fora não existe. Vão pelo Centro, mas sem pressa. Olhem vitrines, se tiverem abertas.

— Carlos vai com Paulo — continuou, seu olhar passando pelos dois rapazes. — Vocês vêm pelo outro flanco, pelo Caju. Roupas de trabalhador. Andem como se estivessem cansados do dia. Não olhem para os outros. Vocês vão vigiar a Ana para que nada dê errado. Se virem movimento estranho, se perceberem uma emboscada, um de vocês cria uma distração. O outro dá o sinal para a Laura e o Lucas, e eles tiram a Ana dali.

Ela deu uma longa tragada, os olhos semicerrados em um plano tático que só ela podia ver completamente.

— Ninguém leva nada escrito. Nada que possa ligar a gente ao jornal ou ao dossiê. É só um encontro. Um encontro que pode salvar a pele de vocês ou condenar tudo. Agora, vão comer. E fiquem espertos. A cidade tá com olho de cobra.

Aquele dia passou nervoso. O rádio a pilha na redação sussurrava notícias absurdas sobre "paz e harmonia" enquanto, entre as linhas das próprias emissoras, anunciavam o desaparecimento de jovens, "procurados para averiguações". Os jornais que Márcio trouxera mais tarde eram um exercício de ficção orwelliana: fotos de desaparecidos em páginas miúdas, contrastando com manchetes ufanistas e a foto imponente do presidente da República, sorridente em um quarto de página.

Madame Satã pegou um dos jornais. Mesmo sem saber decifrar todas as letras, as fotos falavam por si. O sorriso do presidente, os desfiles militares, a sensação de uma felicidade fabricada a golpes de censura. Seu rosto, uma máscara de desprezo profundo, contraiu-se em um misto de raiva e nojo. Com um gesto brusco, ela jogou o jornal no chão de madeira sujo. Olhou para a foto do presidente, aquele símbolo da nova e brutal ordem. E então, com uma precisão deliberada, cuspiu em cima dela. O cuspe escorreu sobre o rosto imponente, manchando o papel barato, um ato mudo de desafio no coração da redação clandestina.

Era um gesto pequeno, inútil contra o poder dos tanques e dos porões. Mas era humano. Era verdadeiro. E naquele lugar, naquela hora, era mais poderoso que qualquer manchete.

O dia escureceu com uma lentidão agonizante. Às 20h, os pares começaram a sair, em intervalos, cada um carregando no peito não apenas o medo, mas a centelha de resistência que Madame Satã, com seu cuspe de desprezo, havia reacendido.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLVI)

Primeiro, foi um sussurro nos corredores do poder. Um telegrama cifrado de Berna. Um despacho urgente de Paris. Uma chamada direta de Washington. Em questão de dias, o sussurro transformou-se num rugido que abalou os alicerces do regime.

O escândalo estourou nas páginas do Neue Zürcher Zeitung, sob a manchete seca: "As Raízes Podres de um Coronel: Escravidão, Sanatório e Fortuna Ilícita na Ascensão Militar Brasileira". No mesmo dia, Le Monde publicava uma investigação aprofundada sobre "As Ligas da Morte e a Herança de um Latifundiário". O Washington Post, atento aos ventos geopolíticos, trouxe: "Aliado Brasileiro Sob Suspeita: O Passado Que Ameaça o Presente".

O dossiê Sabará, meticulosamente compilado na redação do Correio Matutino e disseminado pela rede de resistência, havia atingido seu alvo com precisão devastadora. A história do bebê afogado, de Isabela trancafiada, da Roda dos Esquecidos e das terras roubadas — tudo amarrado ao nome do coronel — não era mais uma lenda subterrânea. Era um fato internacional.

A crise dentro das Forças Armadas foi imediata e virulenta. A linha dura, da qual Sabará era um pilar, sentiu o chão tremer. Oficiais de tradição mais legalista, constrangidos, exigiram explicações. A imagem de profissionalismo e "limpeza" que o regime tentava vender ao exterior rachou. Pior: a CIA, que via no Brasil um aliado anticomunista crucial, ficou furiosa. A exposição era uma bagunça desnecessária, um risco à estabilidade do projeto. Relatórios urgentes foram enviados ao presidente Richard Nixon. A ordem que voltou foi clara e gélida: "Contenham. Isolem. Punam, se necessário. Não podemos ser associados a isso."

A investigação interna contra o Coronel Sabará foi decretada não por um súbito amor à justiça, mas por puro controle de danos. Era uma farsa de disciplina, um ritual de sacrifício para salvar a fachada. Sabará, que se preparava para a assinatura triunfal do AI-5 em Brasília, foi convocado de volta ao Rio sob custódia velada. Não mais o herói do regime, mas o problema a ser eliminado.

O Ato Institucional Nº 5, o instrumento que selaria os "Anos de Chumbo", foi antecipado em um frenesi de pânico e raiva. Assinado em 13 de dezembro de 1968, não foi mais apenas um golpe dentro do golpe; foi também um ato de reação, uma tentativa de fechar todas as comportas, calar todas as vozes, apagar todos os rastros — incluindo os do próprio Sabará e de quem ousara expô-lo. O Congresso foi fechado, os direitos, suspensos. A caça, oficializada.

No sótão da redação do Correio Matutino, o mundo exterior era um furacão de aço e ódio. Mas, naquela noite abafada de 14 de dezembro, entre vigas de madeira exposta e pilhas de jornais antigos cobertos de poeira, havia um universo de apenas dois corpos.

Era a primeira noite de amor entre Laura e Lucas. Não houve romantismo planejado, nem lençóis limpos. Havia um colchão de solteiro despejado no chão, coberto por um cobertor surrado que Alice encontrara. O ar cheirava a papel velho, pó e medo. Mas também cheirava a suor, a desejo contido por tanto tempo, e à urgência brutal do agora.

Eles se deitaram vestidos no escuro, ouvindo os ruídos da cidade sob o toque de recolher não declarado. O beijo no pátio havia sido um início; aquilo era uma rendição. As roupas foram tiradas não com languidez, mas com uma pressão tácita, como se cada botão aberto fosse um fio cortado do mundo lá fora. A pele deles encontrou-se quente e tensa.

Não foi doce. Foi áspero, real, cheio de silêncios quebrados por suspiros e pelo ranger da madeira sob seus corpos. Havia medo no toque de Laura — medo do futuro, medo da morte, medo de perder aquilo que mal havia começado. Havia fúria no abraço de Lucas — fúria contra o regime, contra a injustiça, contra a impotência. O amor deles, naquela noite, era outra forma de resistência. Um ato de afirmação da vida diante da máquina de triturar vidas que se instalava lá fora.

Depois, ficaram deitados, entrelaçados, a pele úmida colando um no outro, ouvindo a respiração ofegante acalmar. Laura traçou os contornos das sardas no ombro de Lucas, como se estivesse memorizando um mapa.

— Eles vão nos caçar com tudo agora — sussurrou ela, a voz rouca na escuridão.

— Eles já estavam caçando — ele respondeu, apertando-a contra si. — A diferença é que agora o mundo sabe por quê. O nome dele está manchado para sempre. Não vão conseguir apagar.

— E a gente? — a pergunta saiu pequena, frágil.

Lucas não respondeu com palavras de esperança vazia. Beijou sua testa, um beijo pesado, carregado da mesma verdade brutal que os cercava.

— A gente tem hoje — ele disse, simplesmente. — E temos isso. E temos o que fizemos. É mais do que ele vai ter no fim.

Lá fora, os "anos de chumbo" começavam oficialmente. O coronel Sabará estava sendo devorado pelo próprio monstro que ajudara a criar. A vitória deles era amarga, parcial e perigosíssima. Mas naquele sótão, por algumas horas, o amor não era uma fuga. Era um forte silencioso, um atestado de humanidade escrito a quente sobre a pele, no calor precário de dois corpos que se recusavam a ser apenas fantasmas na história que ajudaram a escrever.

Em um plano de existência que se dobra entre as fundações do Arco do Teles e o eco de todas as confissões já sussurradas sob sua abóboda secular, Bárbara dos Prazeres observava.

Seu "palácio" não era de mármore ou ouro, mas de sombras úmidas, do brilho opaco de lágrimas secas há séculos e do calor residual de desejos proibidos. Era um lugar feito da essência da cidade que atravessou os tempos, do que flui para os esgotos e do que sobe, como vapor, dos becos. Ali, sentada em um trono de cantos arredondados pelo tempo e pela memória, ela assistia ao desenrolar da trama que ela mesma acendera.

O caderno de couro gasto — aquele que entregara às mãos frias de Ana naquela noite eterna — agora viajava por outras mãos, suas palavras decifradas, sua verdade replicada em prensas rotativas em Zurique, Paris, Washington.

Ela se regozijou.

Um riso baixo, que era o som do riacho de esgoto encontrando a maré, ecoou em seu reino. Viu o nome Sabará — aquele mesmo sobrenome que o avô arrogante e trêmulo lhe confessara em troca de um falso perdão — estampado como manchete, repetido em telegramas, cuspido com desprezo em reuniões secretas. A verdade, aquela verdade podre e pesada que ela guardara como uma pérola negra, foi trazida à tona como uma explosão nos esgotos. Sujou os sapatos polidos dos generais, inundou os gabinetes com seu fedor inegável. A vingança, se é que podia ser chamada disso, era perfeita. A bruxa do Arco do Teles havia, do além, usado os vivos como suas mãos, e arrancado a máscara da dinastia.

A ignição que ela fornecera criara uma labareda que consumia seu alvo.

Mas Bárbara dos Prazeres não era apenas força vingativa. Era uma entidade tecida de dor alheia, de segredos carregados, do peso de incontáveis histórias não contadas. E no tecido da sua própria existência, ela também sabia.

Sabia as consequências.

Enquanto seu regozijo ecoava nas sombras, um outro sentimento, mais antigo e profundo, começou a subir como a água de uma enchente lenta. Ela viu, não com olhos, mas com a percepção de quem habita o entrelugar entre a vida e a morte, o tsunami de aço que se precipitava sobre o Rio. O AI-5 não era apenas um decreto; era um portão de ferro caindo sobre o país. Ela sentiu o aperto no peito de Ana, o medo no toque de Lucas e Laura no sótão, a fuga desesperada que ainda os aguardava. Sentiu a rede se fechar, a escuridão institucional se aprofundar.

Ela não sentiu orgulho. Sentiu um lamento profundo e silencioso, que era o lamento de todas as mães que perderam filhos para a violência do Estado, de todas as vidas truncadas pela sanha do poder. Sua vingança contra uma linhagem de crueldade desencadearia uma era de crueldade ainda mais ampla, mais sistemática. O mal que ela expusera não seria extirpado; seria acuado, e uma fera acuada é a mais perigosa.

Em seu palácio de sombras, o riso se apagou. Seu rosto, uma paisagem de memórias intangíveis, inclinou-se. Uma "mão" feita de névoa tocou as páginas fantasmagóricas do próprio caderno.

— Trouxeram a verdade à luz — sussurrou para o vazio, sua voz o som de uma porta rangendo em um beco abandonado. — Mas a luz agora atrai a tempestade. Eu lhes dei a chama… e esquecí de avisar sobre o vento.

Ela havia feito o que uma bruxa faz: entregou o instrumento do destino. O como e o porquê de seu uso cabia aos vivos. E o preço, também.

Seu regozijo não morreu, mas fundiu-se à sua pena eterna, formando uma nova camada na melancolia de seu reino. A verdade explodira nos esgotos, sim. Mas agora, todos teriam que nadar nas suas águas sujas, tentando não se afogar. Bárbara dos Prazeres observaria, como sempre observara, guardando agora também o peso desse novo capítulo de dor que ela, em parte, ajudara a escrever. A justiça, se é que existia, era uma faca de dois gumes, e o cabo, invariavelmente, cortava a mão de quem a empunhava.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Madame Satã: Uma Biografia em sombras e lampiões)

Ela veio ao mundo como João Francisco dos Santos em 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco, sob um céu de estrelas cintilantes e uma seca que rachava a terra. Mas o menino João, de pele escura e olhos que já desafiavam o horizonte estreito, sempre soube que seu destino não caberia nas fronteiras da caatinga. Trocado por uma égua, trabalhando forçadamente para pagar seu preço, ele viveu como pôde, mas aos 13 anos, partiu. Fugiu; emigrou, levando consigo apenas a fome de existir plenamente. O Rio de Janeiro o engoliu, mas não o digeriu. Ele se tornou Madame Satã não por capricho, mas por ato de guerra: uma guerra de identidade travada nos becos da Lapa, onde a sobrevivência era performance.

A Lapa e a Forja:

A Lapa dos anos 20 e 30 era seu verdadeiro berço, sua academia e seu teatro. Entre os vapores do álcool barato, o suor dos marinheiros e o lamento das cantoras de fado, Madame Satã se forjou. Não foi apenas um malandro, foi um arquétipo ambulante. Usava vestidos de lamê sobre músculos de capoeirista, batia de frente com policiais que ousavam desafiar sua dignidade, e sua fama de brigão lendário era temperada por uma ética peculiar: roubava dos ricos, protegia os fracos (especialmente as prostitutas e os homossexuais perseguidos) e sua casa era um refúgio para desvalidos de todas as cores e amores. Passou décadas entrando e saindo da prisão – a Ilha Grande foi seu endereço recorrente –, cada cela um camarim onde aprimorava sua persona de diva indomável. A lei tentava enquadrá-lo como "vadio" ou "capoeira"; a história o registraria como o primeiro grande ícone queer e antissistema do Brasil, muito antes dos termos existirem.

A Persona e o Poder:

Madame Satã não era uma travesti no sentido moderno; era uma entidade de terceira margem. Uma força da natureza que usava a feminilidade como armadura, provocação e arte. Seu nome, roubado de um filme sobre o demônio, era um escudo e um estandarte. Na boca do povo, "Madame Satã" era sinônimo de coragem temerária, de uma lealdade feroz aos seus, e de uma língua afiada que podia demolir um agressor tanto quanto seus punhos. Era a matriarca não oficial da boemia marginal, uma figura que comandava respeito não pelo medo que inspirava, mas pelo tamanho incomensurável de sua alma.

Os Últimos Anos na Lapa:

Após décadas de uma vida intensa, marcada por prisões, brigas lendárias, noites de farra e uma presença magnética que definiu uma era da boemia carioca, os anos 1970 encontraram João Francisco dos Santos – Madame Satã – envelhecendo. A Lapa que ela conhecera, o reduto de malandragem, liberdade e cultura marginal, já não era a mesma. A ditadura militar (1964-1985) havia apertado o cerco, a repressão moral e policial aumentava, e o bairro começava um longo declínio. O espaço para figuras tão grandiosas e indisciplinadas como a dela estava se fechando.

Ela vivia então em um pequeno quarto no cortiço Cabaré Mayflower, na Rua Aires Saldanha, no coração de uma Lapa decadente. Já não era a temida lutadora de outrora, mas sua presença ainda impunha respeito. Era uma figura venerada pelos mais velhos e vista com curiosidade pelos mais novos. Passava dias na porta do cortiço, observando a rua, contando histórias para quem quisesse ouvir, vivendo de pequenos bicos e da ajuda de amigos fiéis que nunca o abandonaram.

Saúde e Dificuldades:

Sua saúde, naturalmente, declinava. O corpo que havia enfrentado policiais e capangas, que carregara pianos e dançara a noite inteira, agora padecia de problemas respiratórios e do desgaste natural de uma vida tão árdua. A pobreza era uma companheira constante. Em certos momentos, dependeu da caridade de antigos conhecidos e de instituições de caridade para se alimentar e se medicar.

O Reconhecimento Tardio e a Morte:

Um lampejo de reconhecimento maior veio em 1974, quando o jornalista e biógrafo Sylvio Túlio Cardoso começou a entrevistá-la para o livro que se tornaria a primeira biografia sobre sua vida: "Madame Satã: A Vida e a Lenda de João Francisco dos Santos". Esse processo talvez tenha sido um de seus últimos atos de performance, uma chance de curar sua própria lenda para a posteridade. Ela faleceu pouco antes de ver o livro publicado.

Madame Satã morreu em 12 de abril de 1976, aos 76 anos, no Hospital Municipal Rocha Faria, em Copacabana. A causa oficial foi parada cardiorrespiratória, mas pode-se dizer que foi o esgotamento de uma vida vivida com uma intensidade poucas vezes igualada. Sua morte foi discretamente noticiada, mas ecoou profundamente na comunidade LGBT, nos moradores da Lapa e em todos aqueles que viam nela um símbolo máximo de rebeldia e autenticidade.

O Legado Póstumo:

Ao contrário do que se poderia imaginar, sua morte não apagou a lenda; foi o catalisador que a transformou em mito nacional. A publicação da biografia e, décadas depois, o premiado filme "Madame Satã" (2002), dirigido por Karim Aïnouz e com uma atuação monumental de Lázaro Ramos, imortalizaram sua figura para novas gerações.

Hoje, Madame Satã é reconhecida como um ícone precursor da luta LGBTQIA+ no Brasil, que desafiou normas de gênero e sexualidade décadas antes do movimento se organizar; um símbolo da resistência negra e periférica, que usou a astúcia, a força e a arte para sobreviver e afirmar sua dignidade em uma sociedade profundamente racista e classista; a personificação de uma certa essência carioca – malandra, teatral, resiliente e cheia de estilo.

Seu túmulo, no Cemitério do Caju, tornou-se local de visitação e homenagem. Sua vida, que terminou na penúria material, transformou-se em um tesouro cultural inestimável. O fim de Madame Satã foi o de um homem velho e pobre, mas sua partida consagrou a lenda de um titã que, com seus punhos, sua agulha de costura, seus vestidos e sua coragem desmedida, costurou para si um lugar eterno na história do Brasil. Ela não desapareceu; saturou o ar. Sua presença ainda é sentida nos becos da Lapa, em cada performance de drag que ousa existir, e em toda luta contra a opressão.

Madame Satã no Arquivo das Sombras:

Os anos 60 a encontraram mais velha, mas não domesticada. A Lapa mudava, a repressão moral da ditadura começava a sufocar os espaços de liberdade que ela ajudara a construir. Foi nesse crepúsculo que ela encontrou um novo papel: não mais apenas o protetora dos marginalizados da noite, mas a guardiã dos perseguidos do dia. O sobrado do Correio Matutino e a luta dos jovens idealistas contra o Coronel Sabará representavam uma nova frente na mesma guerra eterna contra a opressão. Para Ana, Carlos, Laura, Paulo e Lucas, ele não era uma lenda dos guias turísticos; era Satã, a presença imóvel no canto da sala, cujos olhos velhos enxergavam fantasmas e futuros, e cuja simples existência ali era um testemunho de que era possível resistir, por décadas, e ainda encontrar razão para lutar.

Madame Satã era, portanto, muito mais que uma personagem histórica. Na trama de "O Arquivo das Sombras", ela é a ponte viva entre as cicatrizes do passado e as feridas abertas do presente. Um farol cujas luzes são feitas de lampejos de navalha, lamê e uma ternura feroz, inabalável, que só os verdadeiros titãs da marginalidade podem possuir.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLV)

Aquela noite de dezembro de 1968 caía sobre o Rio com uma pesada umidade de verão. Dentro do sobrado, o trabalho era contínuo, um zumbido de máquinas de escrever, sussurros e o cheiro químico do mimeógrafo. A tensão do AI-5 iminente, a pressão para espalhar o dossiê, a vigilância constante — tudo pesava como uma laje. Mas, no pequeno pátio dos fundos, um espaço de terra batida onde um jardim minguara sob o descaso, uma tensão de outra natureza finalmente encontrava seu ponto de ruptura.

Era por volta das 20h. O calor do dia ainda emanava das paredes de tijolo. Lucas estava sentado nos degraus de madeira gastos da escada de serviço, mordiscando metodicamente uma maçã vermelha que Alice conseguira na feira. A fruta era doce e ácida, um contraste com o gosto constante de poeira e medo.

Laura estava de pé, alguns passos à frente, no pátio. Ela não conseguia ficar parada dentro de casa. A energia dela, que antes se canalizava em organizar arquivos e datilografar com fúria, agora se voltava para dentro, agitada. Seu olhar percorria os vestígios do antigo jardim — uma roseira selvagem, um canteiro de ervas-daninhas — mas sua mente estava em outro lugar.

A conversa havia começado sobre o perigo, o plano, os próximos passos. Mas, como sempre acontecia desde que se conheceram, havia desviado para algo mais pessoal. O assunto agora era a vida que haviam deixado para trás.

— Minha mãe deve ter ido à polícia — disse Lucas, com um tom de resignação que tentava soar casual. Ele olhou para o núcleo da maçã. — Ou acharam que eu fugi com alguma garota e vão me dar como morto até eu aparecer com um filho no colo. O que, considerando tudo, não é a pior cobertura.

Laura deu uma risada baixa, mas sem humor. — Meu pai deve estar dizendo para... qualquer um que eu fui fazer um intercâmbio de última hora. ‘A Laura é tão aplicada, foi estudar na Europa’. — Ela imitou a voz altiva e esnobe do pai, mas o efeito foi mais triste do que engraçado. — Eles não vão conseguir engolir a verdade. Que a filha deles é uma subversiva, uma fugitiva.

Ela fez uma pausa, os braços cruzados. O silêncio entre eles era diferente. Não era o silêncio cúmplice de antes, quando trocavam olhares durante as reuniões do DCE. Naquelas reuniões, ele era o rapaz tímido do curso de Letras, de óculos e sardas, que falava pouco, mas quando falava, era com uma clareza cortante sobre Gramsci que a fazia prestar atenção. Ela, a estudante de Comunicação Social, cheia de certezas e senso crítico afiado, sempre o notava no canto, anotando. O interesse havia nascido ali, naquele espaço de ideias e rebeldia teórica.

Mas a aventura — a fuga, os espectros, o roubo no clube, a escrita do dossiê — mudara tudo. A convivência diária e forçada, as noites de vigília, o medo compartilhado e a coragem desesperada haviam fertilizado o terreno para algo que as teorias não explicavam. O sentimento, cuidadosamente contido pelo perigo constante, agora aflorava como a roseira selvagem no pátio: teimosa, incontrolável, bela em sua impropriedade.

Num dado momento, Laura se cansou de falar de ausências. Ela se virou e deu dois passos firmes em direção à escada. Parou diante dele, sua silhueta bloqueando a luz fraca que vinha da janela da cozinha. Uma mão dela se agarrou ao corrimão de ferro enferrujado, como se precisasse de apoio para o que ia dizer.

— Lucas — ela chamou, a voz mais suave do que ele jamais ouvira. — Sabe de uma coisa? Desde aquela primeira reunião no DCE, quando você discutiu o conceito de hegemonia cultural e ninguém mais na sala parecia entender, mas eu entendi… desde sempre eu tive interesse em você.

Lucas parou de morder a maçã. O pedaço que estava mastigando ficou preso em sua boca. Ele a olhou, seus olhos por trás dos óculos ampliados pela surpresa. A luz fraca iluminava o contorno determinado de seu rosto, a franja desarrumada, a intensidade em seus olhos que não era mais só de luta política.

Ele engoliu o pedaço de maçã com dificuldade, a doçura e a acidez agora uma bola nervosa em sua garganta.

— Laura, eu… — ele começou, mas as palavras se perderam.

Ela não esperou. Inclinando-se para frente, ainda segurando o corrimão com uma mão, ela beijou-o.

Não foi um beijo hesitante ou doce. Foi um beijo firme, um ato de decisão tão característico dela. Carregava o gosto da maçã, do sal do suor do dia, e de todas as palavras não ditas, de todos os perigos enfrentados juntos. Era um beijo de aqui e agora, um clamor por algo real no meio do caos que os cercava.

Lucas ficou imóvel por uma fração de segundo, o mundo desfocando ao seu redor. Então, suas mãos se moveram. Ele deixou a fruta rolar, colocou a mão livre na nuca dela, puxando-a para mais perto, respondendo ao beijo com uma urgência igual.

Foi nesse exato momento que a porta dos fundos se abriu com um rangido.

Madame Satã surgiu no limiar, um cigarro longo já entre os dedos, provavelmente à procura de um lugar para fumar longe do cheiro do mimeógrafo. Seus olhos, acostumados a ver tudo na Lapa, captaram a cena instantaneamente: os dois jovens entrelaçados nos degraus, a maçã abandonada, o ar carregado de descoberta.

Um sorriso largo e irreverente abriu-se em seu rosto. Ela não fez cara feia, nem recuou. Em vez disso, ergueu as mãos e bateu três palmas lentas e altas, que ecoaram no pátio quieto.

Pá! Pá! Pá!

— Tá na hora de parar a safadeza, circulando, circulando!! — anunciou ela, em sua voz grave e arrastada, carregada de autoridade cômica, mas inquestionável. — O romance de vocês pode esperar, mas o Brasil não! Lá dentro tão precisando de ajuda pra embalar os pacotes pro exterior. Depois vocês continuam a novela das oito.

Laura e Lucas se separaram de um salto, como adolescentes pegos no portão pela mãe. O rosto de Laura ficou escarlate, enquanto Lucas, atrapalhado, buscou a maçã no chão, evitando o olhar de todos.

Madame Satã deu uma longa tragada no cigarro, a fumaça saindo em um anel perfeito. Seus olhos brilharam com uma centelha de afeto genuíno no meio da severidade teatral.

— Aproveitem o sentimento, meus filhos — disse ela, num tom mais baixo. — Num mundo que tá ficando mais cinza a cada dia, um pouco de cor é resistência também. Mas agora, circulando.

Ela fez um gesto magnânimo com a mão, indicando a porta, e posicionou-se no pátio para fumar, concedendo-lhes — e a si mesma — um momento de privacidade para se recomporem.

Laura e Lucas trocaram um último olhar, um misto de constrangimento, riso contido e uma cumplicidade que agora era pública, abençoada, de certa forma, pela irreverência protetora de Madame Satã. A guerra continuava, o AI-5 se aproximava, mas, naquele instante, haviam sido lembrados de que também estavam vivos. E, às vezes, viver incluía uma maçã, um beijo roubado e as palmas irônicas de uma lenda da Lapa.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIV)

A noite no cais do porto era um mundo de sombras e sons abafados. O cheiro de sal, óleo podre e peixe velho pendia no ar úmido. As luzes fracas dos postes espalhavam poças de amarelo sujo sobre o cais de pedra, longe de dissipar a escuridão entre os armazéns. Ana caminhava, seus passos quase silenciosos sobre o asfalto úmido. O lenço florido amarrado em seus cabelos parecia um toque absurdo de primavera naquele lugar de concreto e ferrugem. Era o sinal, mas também um lembrete frágil de normalidade.

Na bolsa de palha, pendurada a seu lado, pesava não apenas seus pertences, mas uma cópia densa do dossiê do Correio Matutino. A verdade, impressa em papel barato, pronta para ser entregue.

Seus amigos estavam espalhados como sombras: Carlos e Lucas observavam de uma janela alta do Armazém 6, com uma vista clara do ponto de encontro. Paulo e Márcio guarneciam as rotas de fuga, misturados à paisagem noturna de trabalhadores cansados e marinheiros.

Então, vindo da escuridão da avenida, um carro se aproximou. Um Opala cor de creme, discreto, sem placa militar visível. Ele reduziu a velocidade, a seta piscando laranja em um ritmo hipnótico. Parou ao lado de Ana. A porta do passageiro se abriu.

Dentro, o rosto de Rafael era uma máscara pálida sob a luz do painel. Seus olhos, aqueles mesmos olhos familiares, mas agora eternamente escaneando, encontraram os dela. A tensão neles era palpável, um fio de aço prestes a arrebentar.

— Entra, Ana — disse ele, a voz baixa, quase engolida pelo ronco suave do motor.

Ana entrou, fechando a porta. O interior cheirava a cigarro e couro velho. Rafael não a abraçou. Não havia tempo para afagos. Ele engatou a marcha e o carro deslizou para frente, circulando lentamente pela área de carga, longe dos olhares diretos, mas sempre em movimento.

— Você está bem? — foi a primeira coisa que ele perguntou, os olhos fixos na rua, mas a atenção toda voltada para ela.

— Estamos. Conseguimos o arquivo. — Ela colocou a mão sobre a bolsa. — O dossiê completo.

Um leve aceno de cabeça, mais de alívio do que de surpresa. — Eu soube. O burburinho interno é de pânico contido. Eles sabem que algo vazou, que há um documento, mas não sabem o alcance. Por isso a convocação.

— Convocação? — Ana se virou para ele.

Rafael fez uma curva lenta, seus dedos brancos no volante. — Sabará. Foi convocado para Brasília. "Reuniões de planejamento estratégico", dizem. Vai ficar semanas lá.

Ele olhou para ela rapidamente, e o que Ana viu em seus olhos não era apenas tensão, era uma espécie de horror antecipado.

— É estranho. Ele nunca se ausenta. É um cão de guarda, não um estrategista de gabinete. E o clima… não é de planejamento. É de preparação. Algo está para ser lançado. Algo grande, e feio. Os generais estão se trancando com o presidente. Os assessores jurídicos estão trabalhando dia e noite. Há um silêncio nos corredores que é pior que qualquer grito.

Ele fez uma pausa, engolindo em seco.

— O que ninguém sabe ainda, nem mesmo a maioria dos oficiais da minha patente… mas os ventos que eu sinto, as ordens que estão sendo pré-redigidas, os planos de contingência… — Ele respirou fundo, como se a próxima frase fosse física. — Eles vão assinar um novo Ato Institucional. O mais duro de todos. Vai suspender tudo: direitos, garantias, o Congresso, o habeas corpus… Vai dar poder total ao Executivo. Vai ser uma licença para caçar. Eles vão querer limpar a casa antes que isso aconteça, e varrer qualquer oposição depois.

As palavras caíram no carro como blocos de concreto. O Ato Institucional Nº 5. A marcação oficial dos "Anos de Chumbo". Ana sentiu um frio que não vinha da noite úmida, mas do futuro que se precipitava sobre eles.

— Quando? — sua voz saiu um sussurro rouco.

— Em dias. Talvez uma semana. Não mais que isso. — Rafael parou o carro em uma área escura, longe de qualquer luz. Finalmente, ele a olhou diretamente. — Por isso eu te chamei. O dossiê de vocês… ele não é mais apenas uma denúncia. É uma bomba-relógio. E o contador acabou de ser acelerado brutalmente. Se esse AI-5 cair com o Sabará ainda sendo uma figura pública intacta, ele vai usar os novos poderes para enterrar essa história e enterrar vocês de uma vez por todas. Vocês têm que agir agora. Enquanto ele está fora, enquanto a atenção deles está dividida entre Brasília e a preparação do golpe dentro do golpe.

Ele estendeu a mão, não para pegar a bolsa, mas para tocar o dorso da mão dela, um gesto rápido, quase furtivo, de contato humano.

— Esse dossiê não pode ficar só no Rio. Tem que voar. Tem que navegar. Tem que pegar estrada. Vocês têm que acionar toda a rede. A maior que esse país já viu. Avião, navio, trem, mensageiro a pé. Cada cópia é uma semente. E vocês têm que plantá-las antes que o inverno feche o céu.

Ana apertou a bolsa contra o corpo. O peso do papel agora era o peso da história, do momento exato. Ela tirou a cópia e a entregou a ele.

— Tome. É a sua. Para você saber por inteiro o que está lutando contra. E para você ter uma arma, se precisar.

Rafael pegou o maço de folhas, seu rosto sério. Ele não era mais apenas o irmão protetor; era um operativo recebendo a maior missão de sua vida dupla.

— Eu vou fazer a minha parte por dentro — ele prometeu. — Tentarei atrasar, confundir, avisar. Mas a difusão… isso depende de vocês. Agora, você tem que ir. Este carro já chamou atenção demais.

Ele se inclinou e abriu a porta do lado dela. — A rede, Ana. Acione a rede toda. O Brasil precisa ler isso antes que as luzes se apaguem de vez.

Ana desceu, o lenço florido ainda em sua cabeça, um ponto de cor na escuridão. Ela não deu o sinal de perigo. Olhou uma última vez para o irmão, o soldado na sombra, e acenou com a cabeça. Ele respondeu com um aceno igualmente breve, então o Opala cor de creme se fundiu à noite, desaparecendo.

Ela se virou e caminhou de volta para onde seus amigos a aguardavam. Não era mais uma missão de expor um homem. Era uma corrida contra o relógio da ditadura, uma batalha para semear a verdade na véspera da noite mais longa. A resistência, agora, tinha um nome e um prazo: O Dossiê Sabará, antes do AI-5.

Antes que Ana pudesse sair do carro, com a gravidade do AI-5 pairando como uma lâmina sobre eles, ela se virou para Rafael. Havia uma peça crucial do quebra-cabeça que ele precisava saber, uma que poderia mudar sua perspectiva do jogo.

— Rafael, tem mais uma coisa — ela disse, baixando ainda mais a voz, como se o próprio carro pudesse ter ouvidos. — Nós não estamos sozinhos. E a notícia já começou a vazar.

Os olhos dele, sempre escaneando os espelhos retrovisores, fixaram-se nela por um segundo mais longo. — O que você quer dizer?

— Tem um homem. Zé Lopes. Um operador de rádio amador, do sertão perto de Barbacena. — Ana viu um leve reconhecimento no olhar de Rafael; talvez o nome tivesse aparecido em algum relatório interno sobre "transmissões subversivas". — Ele transmitiu a primeira parte do material. Os dados iniciais, as conexões com a fazenda, com o sanatório. Foi por ondas de rádio, código aberto.

Ela fez uma pausa, enfatizando as próximas palavras.

— E alguém ouviu. Ele captou uma resposta. Em francês, talvez outra língua. A transmissão foi para a Europa, Rafa. A história do avô do Sabará, da Roda dos Esquecidos… já cruzou o oceano.

Rafael ficou imóvel por um instante, a informação processando. Um brilho diferente — não de medo, mas de cálculo estratégico — acendeu em seus olhos. A fuga de informações não era mais uma vulnerabilidade; era uma alavanca.

— Europa… — ele murmurou. — Isso muda tudo. Significa que a pressão não será apenas interna. Haverá olhos internacionais. Perguntas. Isso pode freá-los, ou pelo menos, torná-los mais… cautelosos na hora de agir.

Ana acrescentou, puxando outra informação crucial de sua memória: — E não foi só o rádio. Nós fizemos um contato seguro, por meio de uma rede de padres progressistas. Uma cópia física inicial do dossiê, a primeira que conseguimos compilar, foi enviada por correio diplomático disfarçado. Está a caminho de um jornal em Zurique, na Suíça. Deve chegar em dias.

Agora Rafael realmente parecia surpreso. O plano deles era mais audacioso e mais avançado do que ele imaginava. Não se tratava apenas de esconder provas ou de fazer panfletagem clandestina. Era uma operação de inteligência em sentido inverso, vazando os segredos podres do regime para o exterior, onde estariam mais protegidos.

— Zurique… — ele repetiu, quase para si mesmo. — Neutra, com uma imprensa forte. Se publicarem… mesmo com o AI-5, mesmo fechando tudo aqui, a mancha será internacional. O nome Sabará ficará associado a escândalo e crime contra a humanidade para o mundo todo ver. Isso é… isso é genial.

Ele a olhou com um misto renovado de admiração e preocupação. A irmã que ele resgatou do Galeão estava no centro de uma rede global.

— Isso é também um alvo gigantesco nas costas de vocês — advertiu, a voz grave. — Se descobrirem o canal para a Suíça, vão descer com tudo. O AI-5 dará a eles o pretexto legal para fazer o que já querem: sumir com vocês sem deixar rastro.

— Por isso temos que acelerar — insistiu Ana. — A rede aqui dentro precisa distribuir as cópias antes que o cerco se feche completamente. E a notícia lá fora precisa ser publicada enquanto ainda houver um mínimo de fresta para a informação sair daqui. É uma corrida em duas pistas.

Rafael assentiu, a decisão tomada em seu rosto. Ele agora tinha uma visão completa do campo de batalha: a repressão iminente em Brasília, a rede de distribuição interna, e a fuga de informação para a Europa e Suíça.

— Certo — ele disse, sua voz assumindo um tom de comando operacional. — Meu papel agora é triplo. Primeiro: tentar atrasar qualquer operação contra vocês que eu identificar. Segundo: monitorar o lado deles sobre essas vazamentos internacionais. Se eu ouvir qualquer coisa sobre "jornal suíço" ou "transmissões para Europa", eu aviso. Terceiro… — Ele hesitou, mas prosseguiu. — Quando o AI-5 for assinado, a comunicação ficará quase impossível. Vou estabelecer um ponto de contato de emergência. Algo que não pareça suspeito. Um anúncio classificado no Jornal do Brasil, na seção de "achados e perdidos". A mensagem será "Procura-se pastor alemão, resposta para box 777". Se você vir isso, significa que tenho informações críticas e que o ponto de encontro é o mesmo: o Cais, Armazém 7, sempre às 22h.

Ana memorizou. "Pastor alemão. Box 777."

— Agora você realmente tem que ir — Rafael insistiu, sua mão pousando de novo na maçaneta. — E, Ana… espalhem essa semente. Rápido e longe. O vento que o Zé Lopes sentiu no rádio… façam esse vento virar um furacão que chegue até Brasília.

Ana desceu do carro, a bolsa mais leve sem a cópia do dossiê, mas seu coração carregado de uma missão ampliada. Ela não acenou. Apenas se fundiu às sombras, o lenço florido desaparecendo na direção dos amigos.

Dentro do Opala, Rafael segurou o maço de folhas por um momento, sentindo o peso da história e da traição que carregava. Em seguida, colocou-o sob o assento, acionou a seta e mergulhou o carro de volta na noite, rumo ao quartel, ao coração da besta que ele agora ajudaria a derrotar, de dentro para fora. A batalha pelo Arquivo das Sombras tinha, naquele momento, se tornado verdadeiramente global.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIII)

O ponto de encontro na entrada de São João de Meriti era um lugar de passagem: poeirento, barulhento, cheio do ronco contínuo de motores a diesel e do vai-e-vem de homens apressados. Nelsinho estacionou o caminhão um pouco afastado, numa área de sombra de um barracão abandonado. A tensão era palpável. Lucas observava cada veículo que se aproximava, cada vulto que passava, enquanto Márcio, mais imponente, tentava parecer um ajudante qualquer esperando carga.

Quando um caminhão de mudanças mais antigo, com a pintura descascada e uma nuvem de fumaça preta saindo do escapamento, encostou pesadamente, todos os sentidos se aguçaram. A porta do passageiro se abriu e dela desceu, mais do que saiu, uma figura.

Era Zé Lopes. Magro como um graveto, mas com uma energia contida que lembrava um arame farpado. Seus olhos, profundamente encovados, varriam o ambiente com a rapidez de um pássaro assustado antes de pousarem em Nelsinho. Ele vestia uma roupa surrada, de cor indefinida pela poeira da estrada. Da caçamba, puxou uma mala preta, enorme, desproporcional ao seu corpo franzino. O peso da coisa quase o derrubou, fazendo-o cambalear.

Nelsinho saiu do caminhão como um tiro. Em dois passos largos, estava ao lado do velho, segurando-o pelo braço com uma firmeza gentil.

— Zé, alguém te seguiu? Você está bem? — a voz de Nelsinho era baixa, mas urgente, carregada de preocupação genuína.

Zé Lopes sacudiu a cabeça, ofegante, mas com um brilho de vitória precária nos olhos. — Nada, filho. Vim no meio de uns colchões velhos. O motorista é um amigo da Tonha, sabe como é. Acho que ninguém viu.

Nelsinho, então, pegou a mala das mãos trêmulas do velho. O peso era surpreendente, desequilibrado. Nelsinho ergueu as sobrancelhas.

— Você veste chumbo, Zé? O que tem nisso, o ouro do rei Salomão?

Zé Lopes soltou uma risada curta, nervosa, que terminou num leve acesso de tosse. — Ouro não, minino. Mas vale mais. Acha que sou besta de viajar de mão abanando?

Ele deu uma olhada ao redor e, satisfeito que apenas Lucas e Márcio estavam à distância de ouvir, baixou ainda mais a voz, quase um sussurro áspero.

— Trouxe um equipamento. Um transceptor, o melhor que consegui montar com as peças que eu guardava. Pequeno, mas potente. E uma antena dobradiça. — Seus olhos brilharam com um orgulho de técnico. — Para continuar a receber as respostas. Aquilo que vocês mandaram… o primeiro sinal, os dados… chegou longe. Muito longe.

Ele fez uma pausa dramática, engolindo em seco.

— Oropa.

A palavra pairou no ar poeirento entre eles, carregada de um significado imenso. Não era apenas uma confirmação de que a mensagem fora ouvida. Era a prova de que a denúncia havia atravessado o oceano, alcançado redes de solidariedade, talvez a imprensa internacional, grupos de direitos humanos. O arquivo das sombras do Coronel Sabará tinha eco.

Lucas, que se aproximara, sentiu um arrepio. A fuga, o risco, o roubo dos documentos — tudo aquilo ganhava uma dimensão nova, real. Eles não estavam sozinhos numa bolha de resistência. A história que estavam tentando contar tinha encontrado ouvidos do outro lado do mundo.

— Europa… — repetiu Nelsinho, num sussurho reverente. Então, a urgência retornou. — Isso é incrível, Zé. Mas não podemos ficar parados aqui. Vamos. Vamos te levar para um lugar seguro.

Nelsinho e Lucas carregaram a pesada mala preta — agora um tesouro ainda mais precioso — para o baú do caminhão. Márcio ajudou Zé Lopes a subir para a cabine, onde o velho pareceu murchar, a adrenalina da fuga dando lugar a uma fadiga profunda.

— O equipamento… tem que ficar seco… e escondido — murmurou Zé, já quase dormindo em pé.

— Vai ficar, seu Zé — garantiu Lucas, fechando a porta. — Vai ficar bem escondido.

O caminhão de Nelsinho partiu, deixando para trás o barulho da rodovia. Agora, rumo à Rua Maranguape, ao porão secreto de Alice, eles carregavam não apenas um homem perseguido, mas um frágil elo com o mundo exterior, uma prova viva de que sua luta, contra todas as probabilidades, estava sendo ouvida. A fuga de Zé Lopes não era apenas uma retirada; era um avanço. A notícia tinha ido para a Europa. E, graças à mala preta, as respostas ainda poderiam vir.

O caminho de volta à Lapa, com Zé Lopes agora seguro no caminhão, foi preenchido por sua história, contada entre cochilos e acessos de clareza nervosa.

— Depois que mandei a primeira fornada… os dados iniciais, o recorte do dossiê… fiquei colado no rádio — ele contou, a voz fraca contra o ronco do motor. — Dias. Só o chiado, aquele ruído branco que enche a cabeça e esvazia a esperança. Até que… um dia. Uma voz. Não era português. Parecia francês, ou talvez holandês… algo assim. Cantava nas ondas, distante, mas clara. Uma mensagem codificada, eu aposto. Alguém tinha ouvido.

Seus olhos, velhos e cansados, brilharam por um instante. Mas logo se apagaram.

— Depois disso… nos dias seguintes, as coisas começaram a falhar. O rádio engasgava, a transmissão era cortada por interferência pesada, não natural. E uma noite, escuto bem no fundo, no meio de um ruído… uma voz em português, clara como água: 'Senhor, acredito que é Barbacena, senhor!' — Zé Lopes imitou a voz, um tom burocrático e alarmado que fez o sangue de Lucas esfriar. — Era eles. Localizando o sinal. Triangulando. Foi quando eu saquei. Peguei o equipamento essencial, joguei o resto no poço, e a Tonha me escondeu até arranjar essa carona.

O relato confirmava o pior: a perseguição era ativa, tecnológica e implacável.

Enquanto isso, um perigo paralelo se materializava no Centro. Seu Martinho, retornando à sua distribuidora para checar o negócio e esconder uma cópia do dossiê, encontrou algo perturbador. No chão, perto da porta dos fundos, jazia um envelope branco simples, sem selo, provavelmente enfiado por baixo.

Com o coração pesado, ele o abriu. Dentro, uma folha de papel datilografada, com uma mensagem curta e eletrizante:

"Eu sei quem vocês são e o que vieram fazer no clube militar. Rastreei até essa loja. Preciso falar com Ana. Estarei dia 23 às 22h no cais do porto, ao lado do armazém 7. Não avise os outros. Ass. Rafael"

Martinho não conhecia nenhum Rafael. Mas Ana… ele sabia muito bem quem era. A garota quieta, de olhos observadores, que estava no centro daquele turbilhão. Sem hesitar, trancou a loja e, com o envelope queimando em seu bolso, dirigiu-se de volta ao sobrado do Correio Matutino.

A redação estava em plena operação de dispersão quando ele entrou. O clima era de exaustão concentrada. Martinho foi direto até Ana, que ajudava Carlos a organizar as últimas cópias.

— Menina — disse ele, baixinho, seu rosto sério. — Alguém deixou isso na minha loja. É pra você.

Ana pegou o envelope, uma pontada de apreensão no estômago. Leu o bilhete uma, duas vezes. Seu rosto, normalmente tão controlado, passou por uma rápida sucessão de emoções: surpresa, reconhecimento, medo, e então uma resignação calculada.

Todos na sala pararam para olhar. O silêncio que se seguiu foi quebrado pela voz clara de Ana.

— É do Rafael — ela anunciou, deixando o papel sobre a mesa para que os outros vissem. — Meu irmão.

O ar na redação, antes carregado de desconfiança total, agora se encheu de um tensionamento diferente — ainda perigoso, mas entrecortado por um fio de esperança profunda e uma dívida de vida.

Ana pegou o bilhete novamente, seus dedos traçando o nome "Rafael". Um tremor leve, de emoção contida, percorreu sua mão. Seu rosto perdeu toda a rigidez defensiva, revelando por um instante a jovem assustada e grata que havia sido no corredor do Galeão.

— Ele rompeu com a máquina, aquele dia no Galeão. Ele nos ajudou e ficou dentro para nos proteger.

Todos os olhos estavam nela. Ela respirou fundo, contando a história que poucos sabiam em seus detalhes.

— No Galeão… quando ele me viu, achou que eu era só uma estudante traidora, pronta para ser presa. Quando percebeu que eu era o contato da resistência… foi como se o chão tivesse sumido para os dois. — Ela fez uma pausa, o peso daquela revelação ainda fresco. — Ele me tirou dali. Disse que era uma armadilha do DOI. Que estavam usando encontros como isca para limpar a área. E ele… ele era a isca militar. Acreditavam que ele era leal, e era, mas não contra a própria irmã.

Ela olhou para o bilhete, como se pudesse ver através do papel.

— Ele nos levou até uma saída dos fundos, pela área de carga. Distraiu seus próprios homens, mentiu para seus superiores. Deixou-nos ir com uma ordem: ‘Some. E não confie em ninguém.’ E ele ficou. Porque se desaparecesse, nos caçariam através dele.

Laura arregalou os olhos. — Ele te salvou. E se queimou por você, ficando dentro do vespeiro.

— Salvou — confirmou Ana, a voz firme novamente. — E agora… ele sabe do que fizemos no clube. Rastreou a loja do Martinho. E quer falar comigo. Se ele está arriscando contato assim, depois de dias… é porque tem algo relevante para falar.

A revelação transformou "Rafael" de uma potencial ameaça em uma aliança poderosa, íntima e agonizante. Um oficial de inteligência que já havia demonstrado sua lealdade final à irmã, operando agora como uma possível dupla face dentro do próprio aparato. Era um trunfo além de qualquer sonho. Mas também era o homem mais vigiado do mundo, vivendo uma mentira diária.

Carlos raciocinou em voz alta, o respeito misturado à cautela: — Ele está dentro. Tem acesso a informações que nós nunca teríamos. Pode saber dos planos do Sabará, do rastreamento do Zé Lopes, de operações iminentes contra nós. Mas… também está sob vigilância constante. Este encontro é um risco colossal para ele.

Madame Satã assentiu lentamente, o cigarro soltando um anel de fumaça que subiu na luz fraca. — Um homem que caminha sobre uma lâmina para proteger o que ama. Se ele pede para você ir sozinha, é porque acredita que qualquer companhia aumentaria exponencialmente o risco de ambos serem flagrados. É um ato de proteção, não de controle.

— Não é armadilha — disse Ana, com a convicção de quem olhou nos olhos do irmão e viu o pavor e a determinação. — Ele já cruzou a linha por mim. Este bilhete é ele estendendo a mão de novo, do outro lado do abismo.

Lucas, pragmático, colocou a questão operacional: — Então o plano do cais se mantém. Ana vai. Sozinha, como ele pede. Mas a gente vai estar lá. Não perto, como guarda-costas. Mas com binóculos, cobrindo todas as rotas de fuga e de aproximação. Se for uma armadilha deles, e não dele, a gente precisa ter um aviso para poder sumir com o dossiê.

Paulo, que vira de perto a transformação agonizante de Rafael no Galeão, falou com uma seriedade profunda: — Ele disse ‘não confie em ninguém’. Mas ele está confiando em você. E você confia nele. É um laço que vai além de qualquer plano. Vá. Mas leve um sinal. Algo discreto. Se você sentir que algo está errado, que não é ele, ou que ele está sob coação… nos avise.

A ideia era boa. Combinaram um sinal simples: se Ana tirasse o lenço que envolvia os cabelos durante a conversa, era o aviso de que a coisa estava ruim e eles deveriam evacuar a redação imediatamente.

O plano foi refeito. O encontro no cais do porto na quinta-feira às 22h não era mais apenas um risco ou uma oportunidade tática; era um reencontro carregado de uma dívida, um risco compartilhado e a possibilidade angustiante de uma despedida. Enquanto as cópias do dossiê continuavam a ser feitas e escondidas, uma nova frente, profundamente pessoal e perigosíssima, se abria: o contato com um homem que vivia no coração da escuridão, e que talvez pudesse lhes dar não apenas informações, mas um aviso que salvaria suas vidas.

A rede de segredos que eles estavam desvendando agora puxava um fio de esperança direto para dentro do próprio inimigo. Tudo dependia, mais uma vez, de um encontro silencioso entre dois irmãos em um cais escuro — mas agora, ambos sabiam exatamente em que lado da guerra cada um estava, e o preço terrível que já haviam começado a pagar.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLII)

O maço de documentos antigos, agora espalhado com ordem meticulosa sobre a grande mesa, era mais do que papel; era um esqueleto. Cada contrato, cada recibo de compra de terra, cada carta, cada registro de batismo falsificado, cada transação bancária obscura — eram vértebras que, quando unidas, formavam a coluna de uma verdade monstruosa. Eles tinham todas as linhas que atavam as pontas soltas do dossiê coletado: a fazenda em Minas não era só um investimento; era parte do espólio da família que ascendera ao poder apagando seus rastros. O nome do avô do Coronel Sabará aparecia não como um herói, mas como um especulador cruel, ele abandonou a mãe de seu filho e entregou seu filho recém nascido para a amante, registrando como mãe da criança. Pior: os documentos ligavam essa fortaleza inicial à expropriação de terras de libertos, ao financiamento velado do sanatório de Barbacena (para onde "problemas" como Isabela eram enviados), e a acordos sombrios com a velha guarda política que pavimentaram a ascensão do neto, o Coronel, dentro da estrutura militar.

A história estava toda ali, escrita em tinta desbotada e em códigos de poder.

"A SANGUE E CAFÉ: A VERDADEIRA HISTÓRIA DA FAMÍLIA SABARÁ, DE BARBACENA AO DOI-CODI"

Enquanto Carlos e Ana, com atenção e cuidado, continuavam a separar e analisar cada evidência, cruzando dados com o caderno de Bárbara, Laura e Lucas se sentaram diante da velha Underwood. Eles eram os narradores, os arquitetos da versão pública daquela verdade. Rapidamente, dividindo parágrafos e passando a folha de um para o outro, começaram a tecer a narrativa. O texto tinha que ser factual, seco, devastador em sua lógica, um tijolo de jornalismo investigativo que pudesse derrubar portas. Os elementos sobrenaturais — o espectro de Bárbara, a bruxa, o caderno como arma espiritual — foram obviamente deixados de fora. A história que nascia daquelas teclas rangentes era de corrupção fundiária, tráfico de influência, falsificação de documentos, apropriação de heranças alheias e a construção de uma dinastia de poder sobre alicerces podres. Era a biografia não oficial do Coronel Sabará e de sua sombra alongada sobre a história do Brasil.

O ritmo era frenético, alimentado por café amargo e a urgência do amanhecer. O tac-tac-tac da máquina era o tambor daquela guerra particular.

Às cinco da madrugada, quando a primeira luz ainda era apenas uma promessa cinzenta atrás dos prédios da Lapa, um calhamaço de folhas de papel ofício, cheias de texto denso e correções à caneta, estava pronto. Era um rascunho, sim, mas um rascunho completo. A verdade, pela primeira vez, tinha uma forma narrativa palpável.

Exausta mas com os olhos ardendo, Laura empilhou as folhas, alinhou-as com um golpe seco na mesa e entregou-as a Madame Satã, que havia observado todo o processo do seu trono improvisado de cadeira de balcão, envolta em um roupão surrado como um manto de julgamento silencioso.

Madame Satã pegou o peso das folhas em suas mãos, sentindo a gravidade das palavras. Seus olhos, profundos e cansados, percorreram a primeira página, mas não se fixaram. Em vez disso, ela estendeu o maço para Alice Cavalo de Pau, que fumava um cigarro na janela, observando a rua.

— Lê aí pra mim, Cavalo de Pau — pediu Madame Satã, sua voz um contralto suave na quietude da madrugada. — Esses olhos velhos nunca aprenderam a ler. E quero ouvir a história.

Alice esmagou o cigarro no peitoril, limpou as mãos no avental e, com um ar solene que substituía sua habitual irreverência, pegou as folhas. Ajustou os óculos na ponta do nariz e se posicionou sob a luz direta da lâmpada.

Um silêncio absoluto tomou conta da redação. O tique-taque do relógio de parede soou como um metrônomo. Todos se voltaram para ela: os jovens pesquisadores com os rostos marcados pelo cansaço e pela expectativa, Márcio imóvel como uma estátua, Seu Martinho descansando num canto com os olhos semicerrados, mas atentos.

Alice começou a ler. Sua voz, normalmente áspera e cheia de bordões da Lapa, adquiriu uma cadência diferente, clara, deliberada, quase teatral. Ela lia o texto seco de Laura e Lucas, mas algo acontecia.

"A origem da fortuna e da influência do Coronel A. Sabará remonta não a feitos militares ou empreendimentos lícitos, mas a uma rede de apropriação ilícita iniciada por seu avô , o fazendeiro e especulador Alcebíades Sabará..."

À medida que as palavras fluíam, descrevendo transações obscuras, nomes de pessoas esquecidas, terras roubadas, crianças tratadas como mercadoria, o rosto de Madame Satã se transformava. Ela não olhava para Alice, nem para o papel. Seu olhar estava fixo em um ponto no vazio, no centro da sala, mas era um olhar que via. Seus olhos escuros, normalmente carregados de uma ironia profunda, agora estavam sérios, distantes, refletindo uma dor antiga e uma compreensão aguda.

Era como se ela não estivesse ouvindo uma leitura, mas assistindo a um filme. As palavras de Alice conjuravam as imagens para ela. Talvez ela visse os campos de Minas sendo cercados, o italiano assassinado, a senzala silenciosa após o afogamento do bebê, a figura sombria de Bárbara dos Prazeres negociando destinos, o sanatório com suas grades, o jovem oficial Sabará estudando em mapas as mesmas terras que seu avô usurpara.

Seu rosto era uma tela onde as emoções passavam sutis, mas profundas: um ligeiro tremor no canto da boca ao ouvir sobre a Roda, um estreitar dos olhos ao mencionar o sanatório, uma quase imperceptível inclinação de cabeça quando a narrativa chegava ao coronel moderno e seus métodos de tortura cruéis, ecoando tão familiarmente os do avô.

Alice lia, página após página, e a sala ouvia, presa não apenas pelo conteúdo, mas pelo ritual. A cafetina da Lapa, lendo a sentença de um dos homens mais poderosos do regime. A sobrevivente narrando os crimes dos que sempre sobreviveram impunes.

Quando a última palavra foi pronunciada — um parágrafo contundente ligando a corrupção do passado à repressão política do presente —, um silêncio ainda mais profundo se instalou. O relógio parecia ter parado.

Madame Satã piscou lentamente, como se voltando de uma longa viagem. Seu olhar percorreu cada rosto jovem na sala, depois fixou-se no calhamaço de papéis.

— Está bom — disse, finalmente, sua voz um pouco mais rouca. — Está muito bom. É a verdade. Crua, feia, como deve ser. — Ela fez uma pausa, e seus lábios se curvaram em algo que não era um sorriso, mas um reconhecimento. — Agora… como fazemos essa verdade doer neles?

O impacto do texto lido por Alice ainda ecoava na redação, uma verdade pesada e poderosa pairando no ar enfumaçado da madrugada. O silêncio que se seguiu ao veredicto de Madame Satã era de exaustão solene, mas também de uma ponta de triunfo. Eles tinham a arma. Agora, precisavam do gatilho.

Foi nesse momento de epifania coletiva que a porta do sobrado se abriu de rompante, batendo contra a parede. A figura que entrou, ofegante e desarrumada, era um choque de realidade brutal.

Era Nelsinho, mas não o Nelsinho calado e controlado do volante. Seu rosto estava pálido sob a sujeira da estrada, os olhos arregalados. Ele respirava com dificuldade, como se tivesse corrido por quarteirões.

Todos se viraram de uma só vez, a fadiga instantaneamente varrida por um novo surto de adrenalina. O olhar de medo e urgência de Nelsinho era contagioso.

— A Tonha… — ele conseguiu dizer, engasgando com o ar. — Ela ligou. No orelhão, sabe? Direto pro bar do Zé… não tinha como avisar de outro jeito…

Ele se apoiou no batente da porta, tentando recuperar o fôlego. A sala ficou em tensão absoluta. Tonha. O nome era conhecido. A velha solitária que vivia no remanescente da antiga fazenda do avô Sabará, em Barbacena. Ela era seus "olhos e ouvidos" no lugar de origem, uma amiga de confiança que mantinha uma linha precária de comunicação.

— O Zé Lopes… — Nelsinho continuou, a voz trêmula. — Teve que abandonar a estação. Depois que a gente foi embora, depois da transmissão… conseguiram localizar o sinal. Rastrearam até a casa dele.

Um choque gelado percorreu a espinha de todos. Zé Lopes. O operador de rádio amador, o homem do sertão que, com sua coragem solitária, transmitira as primeiras peças do dossiê para o mundo exterior, arriscando tudo. Seu sinal, sua localização, agora estava comprometida. Isso significava que os homens do Coronel Sabará, do DOI-CODI, estavam perseguindo o rastro eletrônico. Eles estavam se aproximando da verdade por outro flanco, e eram muito mais rápidos e violentos.

— Ele tá vindo para cá — Nelsinho finalmente completou, o olhar desesperado varrendo os rostos à sua frente. — Conseguiu fugir pelo mato, Tonha ajudou. Ele vai tentar chegar. Tá na estrada. Posso trazer?

A pergunta ecoou na sala silenciosa. Trazer Zé Lopes para o sobrado do Correio Matutino significava expor o coração da operação, o local onde o dossiê completo estava sendo montado. Mas deixá-lo à mercê na rua, perseguido, era uma sentença de morte. E ele era uma testemunha viva, um elo crucial.

— Temos que protegê-lo — disse Paulo, sua voz firme, a descoberta da própria heranha dando-lhe uma coragem nova. — Ele fez a parte dele. Não podemos abandonar.

Madame Satã ergueu a mão, um gesto que impôs silêncio. Seus olhos, que há instantes viam o filme do passado, agora estavam absolutamente focados no perigo do presente.

— Nelsinho — ela disse, a voz clara e comandante, cortando a ansiedade. — Você sabe onde ele vai tentar descer? Ponto de ônibus? Rodoviária?

— Disse que viria de carona, caminhão de mudança. Combinou de descer no posto da Dutra, perto de São João de Meriti. Se conseguir.

— Então você vai — ordenou Madame Satã. — Mas não traga ele aqui. É muito perigoso. Leve-o para o sobrado da Rua Maranguape… — ela murmurou, ponderando. A casa de Alice era um labirinto de cômodos alugados e cantos esquecidos, conhecido apenas pelos de dentro. Um porão discreto. Menos exposto que aqui, e mais controlável. — É melhor. Mais perto, e Alice conhece cada roedor daquele lugar.

Alice concordou com um aceno decisivo. — O porão tem uma entrada pela cozinha, atrás do fogão a lenha. Lá ele fica. Tem uma cama de campanha velha e dá para passar comida pela janela gradeada do nível da rua. Ninguém procura lá. Depois você volta e nos avisa.

Ela olhou para Márcio e Lucas. — Vocês dois vão com ele. Por segurança. Levem algo para ele comer, beber, e um casaco. Ele deve estar assustado e exausto.

Alice, ainda com as folhas do dossiê na mão, as apertou contra o peito. — E a gente? O que fazemos com isso? — ela perguntou, olhando para o calhamaço de papel.

Carlos trocou um olhar com Laura. A linha do tempo tinha se acelerado violentamente.

— Tiramos cópias. Agora. Todas as que pudermos — disse Carlos, sua voz urgente. — O mimeógrafo, à mão, o que for. Separamos o original, as evidências físicas, e as cópias. Temos que dispersar isso. Se eles estão chegando perto do Zé Lopes, podem chegar perto de nós a qualquer momento.

A redação, que há minutos era um santuário de descoberta triunfante, transformou-se num quartel-general sob cerco iminente. O triunfo depletivo de ter a história escrita foi substituído pela corrida contra o relógio da repressão. O passado estava documentado. Agora, o presente exigia que eles sobrevivessem para contá-lo.

— E nós aqui — continuou Carlos, olhando para a mesa coberta de documentos e para o mimeógrafo enferrujado — temos que acelerar. Se o rastreamento do sinal do Zé Lopes os levou até Barbacena, e eles estão ativos o suficiente para forçá-lo a fugir, a pressão está aumentando. Podem estar cruzando dados, procurando conexões com o Rio. Nosso tempo pode ser menor do que pensamos.

A urgência agora tinha um gosto metálico, de medo real. A redação se transformou em uma linha de montagem frenética e silenciosa.

Ana e Laura assumiram o mimeógrafo. Enquanto Ana alimentava as folhas mestres do dossiê (cuidadosamente datilografadas em estêncil), Laura girava a manivela com força, cada rotação produzindo uma cópia fantasmagórica, mas legível, da denúncia. O cheiro ácido do álcool de mimeógrafo se espalhou, misturando-se ao café e à poeira.

Paulo e Carlos embalavam o maço original de documentos antigos e as anotações de pesquisa em um pacote de papel pardo à prova d'água que Márcio havia providenciado. Era a evidência primária, a arma que não podia se perder.

Seu Martinho, percebendo que a parte dele na história ainda não tinha terminado, se levantou. — Essa papelada toda copiada… onde vai ficar? Não pode ser tudo no mesmo lugar.

Madame Satã tinha a resposta. — Separamos. Uma cópia fica aqui, escondida na própria redação. Outra vai comigo, para um lugar que nem o diabo encontra. A terceira… — Ela olhou para Martinho. — Você ainda tem aquele vão falso atrás da prateleira dos licores importados?

Um sorriso quase imperceptível tocou os lábios do velho. — Tenho. Lá guardei coisas da ditadura do Vargas. Dá pro gasto.

— Perfeito. Uma cópia vai para sua loja. — Ela então olhou para Alice. — E o Zé Lopes, quando estiver seguro no porão, recebe a quarta cópia. Um homem perseguido que carrega a prova é um homem perigoso… para eles. Ele saberá o que fazer se tudo mais falhar.

Era um plano de dispersão. A verdade não ficaria em um só cesto.

Enquanto o trabalho de cópia e embalagem continuava a todo vapor, Lucas, Márcio e Nelsinho se preparavam para sair. Lucas verificou se não levava nada que o ligasse ao sobrado ou ao grupo. Márcio pegou uma sacola com pão, queijo, uma garrafa d'água e um casaco antigo, mas quente, para Zé Lopes.

— Lembrem-se — advertiu Carlos, enquanto eles se encaminhavam para a porta. — Se houver qualquer sinal de vigilância, qualquer coisa estranha, abortem. Voltem por rotas diferentes. A segurança do Zé Lopes é vital, mas a descoberta deste lugar seria catastrófica.

Lucas assentiu, seu rosto fechado na expressão de alerta que já era familiar. — Entendido. Rua Maranguape, beco dos fundos. Nada de heroísmo.

Eles saíram, engolidos pela penumbra azulada que precede o amanhecer na Lapa. Dentro do sobrado do Correio Matutino, o ritmo continuava implacável. O tum-tum-tum do mimeógrafo agora era o som da resistência, imprimindo, página após página, a sentença histórica do Coronel Sabará. Cada cópia era um fio de um paraquedas que, eles esperavam, faria a verdade aterrissar em segurança, não importa o que acontecesse com os mensageiros.

Enquanto Alice preparava os pães com manteiga e uma garrafa térmica de café, ela olhou para Madame Satã. — E a gente, Satã? Depois de distribuir essas coisas toda?

Madame Satã acendeu um cigarro longo, a fumaça formando um véu diante de seu rosto impenetrável. — A gente, Cavalo de Pau, espera. E vigia. A história saiu da gaveta. Agora vamos ver se o mundo está pronto para lê-la.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLI)

O corredor de serviço do segundo pavimento era um mundo à parte: silêncio sepulcral, iluminação fraca de lâmpadas econômicas e um tapete gasto que abafava os passos. Lucas escutou apenas o batimento acelerado do próprio coração. Nenhum ruído de vozes, nenhum passo distante. O horário era perfeito; o clube era um casarão vazio àquela hora, os oficiais ainda ocupados com a fachada pública de seus dias.

Sua busca foi metódica e tensa. Passou pela entrada discreta da cozinha, onde o cheiro de molho já começava a se formar, e encontrou a escada estreita e íngreme. Subiu os degraus dois a dois, mantendo o ritmo controlado para não fazer barulho.

No alto, outro corredor, mais bem acabado. E então, à direita, a terceira porta. Madeira maciça, escura, encerada. E, pregada no centro, uma pequena placa de latão onde se lia, em letras sóbrias e desgastadas: "Cel. A. Sabará".

O ar ficou mais pesado ao redor daquela porta. Lucas tirou dois clipes de papel do bolso da calça, os mesmos que havia testado e retorcido na madrugada anterior, com dedos que agora tremiam ligeiramente não de medo, mas de adrenalina concentrada. Inseriu o primeiro, sentiu o pino, usou o segundo como tensionador. Não era um arrombador de cofres, mas a fechadura era velha, burocrática, mais para manter a privacidade do que para deter um invasor. Com um click sutil, quase musical, o mecanismo cedeu.

Ele empurrou a porta, entrou e a encostou sem fazer ruído. O cheiro que o envolveu era denso e característico: óleo de peroba da mobília encerada, misturado ao fantasma acre de charutos caros que haviam sido fumados ali por anos, décadas. O escritório era sóbrio, masculino, carregado de autoridade. Estantes de madeira escura com livros de capa dura, um retrato do general-presidente na parede, bandeiras dobradas em um canto.

O alvo estava à sua frente: a grande mesa de trabalho do coronel, uma fortaleza de madeira. Lucas não perdeu tempo admirando o ambiente. Abaixou até ficar atrás da mesa, usando-a como escudo. Começou pelas gavetas do lado direito. A primeira: formulários, canetas, selos. A segunda: correspondência recente, nada relevante. O coração afundou um pouco.

A última gaveta, a inferior direita, estava mais pesada. Ele puxou com cuidado. Lá dentro, não havia organizadores. Apenas uma pasta grossa de papel pardo, desgastada nas bordas, amarrada firmemente com um barbante encerado que formava um nó rígido. Não havia etiqueta.

Com mãos cuidadosas, Lucas desfez o nó o suficiente para espiar o conteúdo. O primeiro documento tinha um carimbo oficial e falava de loteamento, escrituras, uma fazenda em Minas Gerais... nomes, datas do início do século. O sangue correu mais rápido em suas veias. Era isso. Não eram documentos militares da ditadura atual; eram os papéis da fortuna de origem, os laços com a terra, as transações que talvez escondessem o rastro do avô e de seus segredos.

Bingo.

Sem hesitar, refez rapidamente o nó do barbante, não tão perfeito quanto o original, mas suficiente. Pegou a pasta, firme sob o braço. Um último olhar ao redor. Tudo parecia intocado.

Saiu do escritório, fechando a porta com o mesmo cuidado. O click da fechadura soou como um alívio agudo. Desceu a escada de serviço quase saltando, mas controlando cada queda de pé para evitar ruídos metálicos. A despensa estava como antes, apenas com Martinho agora sentado em um caixote, fingindo amarrar o cadarço da bota.

Lucas não precisou dizer nada. Seu olhar rápido e a pasta sob o braço eram a comunicação. Martinho levantou os olhos, um brilho de urgência neles. Com um gesto rápido do queixo, indicou uma pilha de caixas de madeira vazias que haviam sido despejadas num canto, aguardando o retorno.

Sem perder um segundo, Lucas deslizou a pasta de papel pardo para dentro de uma das caixas, entre lascas de madeira e pedaços de palha. Virou-se para Martinho, que já estava de pé.

— Conseguiu? — o velho sussurrou, o rosto uma máscara de tensão.

Lucas respondeu no mesmo tom, mas com uma centelha de triunfo contido nos olhos: — Acho que sim. Vamos embora.

Martinho não esperou por mais. Abriu a porta da despensa e berrou, em voz alta o suficiente para o sarganto na guarita ouvir:

— É isso aí, sargento! Tudo no lugar, como sempre! O resto das caixas vazias a gente leva pra não amontoar lixo aqui! Até a próxima, se Deus quiser!

Ganhou apenas um grunhido de resposta. Juntos, ele e Lucas carregaram rapidamente a pilha de caixas vazias para o caminhão, incluindo a que carregava o tesouro. Cada segundo era uma eternidade, cada ruído da rua parecia a chegada de uma viatura.

O baú foi fechado. A cabine, ocupada. Nelsinho, percebendo a tensão, engatou a marcha sem cerimônia.

O caminhão afastou-se da porta de serviço, virou a esquina, e só então, quando o prédio do clube desapareceu no retrovisor, um longo e coletivo suspiro pareceu ecoar dentro da cabine. A primeira parte, a mais arriscada, estava feita.

Agora, nas caixas vazias, jazia o Arquivo das Sombras do Coronel Sabará. O próximo passo era voltar ao sobrado do Correio Matutino e descobrir que segredos aquela pasta de papel pardo, cheirando a óleo de peroba e charuto, realmente guardava.

O caminhão de Nelsinho já havia percorrido algumas ruas, distanciando-se do perímetro de vigilância do clube, quando a tensão na cabine ainda era um fio de aço esticado. O silêncio era pesado, carregado pelo alívio ainda não processado e pelo peso da pasta escondida no baú.

Foi então que Seu Martinho, sentado no meio, entre Lucas e Nelsinho, deu um leve soco no ombro de Lucas. Um sorriso raro, que partia sua cara de couro curtido, apareceu sob o boné verde.

— O ponto de encontro era a loja, não lembra? Vira na próxima, Nelsinho.

Nelsinho, um homem de poucas palavras e muitas estradas, apenas acenou com a cabeça e fez uma curva suave. Em minutos, estavam de volta à rua estreita e à frente da loja de bebidas. Martinho saltou com uma agilidade surpreendente para sua idade.

— Dois minutos! — disse, e desapareceu dentro.

Lucas e Nelsinho trocaram um olhar. Do lado de fora, o mundo continuava seu ritmo normal, alheio ao roubo de segredos que acabara de ocorrer. Cada segundo parado era um risco, mas a autoridade de Martinho era inquestionável.

O velho reapareceu carregando, não uma garrafa, mas um engradado inteiro de Brahma, as garrafas âmbar suando de gelo recente. Ele abriu a porta do passageiro e jogou o engradado nos pés de Lucas.

O caminhão de Nelsinho estacionou na entrada do sobrado do Correio Matutino. A tensão da cabine havia se dissipado na viagem, substituída por uma urgência silenciosa. O engradado de Brahma gelada permanecia intacto aos pés de Lucas, um prêmio concreto que ainda não havia sido saboreado.

Seu Martinho desceu primeiro, olhou para um lado e para o outro da rua deserta da Lapa, e acenou com a cabeça. Lucas saltou, carregando o engradado com uma mão e, com a outra ajudando Nelsinho, retiraram do baú a pilha de caixas vazias, incluindo a preciosa. O caminhão partiu, seu ronco se perdendo no labirinto de ruas, enquanto os dois homens carregavam a carga suspeita para dentro do refúgio.

Dentro da redação, o ar estava carregado de expectativa. Ana, Laura, Paulo e Márcio interromperam o que estavam fazendo – organizando papéis, ajustando o mimeógrafo, vigiando a janela. O silêncio foi total quando a porta se fechou atrás de Lucas e Martinho. Todos os olhos estavam fixos na caixa de madeira comum que Lucas colocou com cuidado no centro da grande mesa de edição, agora varrida e limpa.

Foi então que Lucas ergueu o engradado de cervejas, o gelo já derretendo em fios de água pelo chão de madeira. Um sorriso amplo e aliviado, o primeiro verdadeiro desde que subiram a escada do clube, abriu-se em seu rosto.

— Pelo susto, pelo risco e pela saída pela porta da frente — anunciou, sua voz soando mais alta e clara do que o normal. — Hoje, a cerveja é por conta da casa.

O gesto quebrou o gelo da tensão. Riso nervosos e suspiros de alívio explodiram. Laura foi buscar um abridor de garrafas feito de um toco e um parafuso em uma gaveta. Em instantes, as garrafas âmbar foram distribuídas, o psiu das tampas abrindo ecoou pelo salão como uma sinfonia de vitória menor. Alice, que surgiu da copa com um pano de prato nas mãos, pegou a sua com um aceno de respeito para Lucas e Martinho.

— Saúde ao gatuno e ao velho lobo do mar — brindou Madame Satã, de seu canto, erguendo sua garrafa com uma dignidade real.

Todos beberam. O líquido gelado e amargo não era luxuoso, mas naquele momento, sabia a liberdade, a ousadia e a união. Era o sabor do coração batendo forte mas ainda no peito, do perigo enfrentado e temporariamente vencido. Bebiam com os olhos brilhando, conversando em frases curtas e alegres, os corpos relaxando da postura de alerta que mantinham há horas.

Todos, exceto Carlos.

Enquanto os outros brindavam e riam, aliviando a pressão, Carlos permanecia à margem, sua garrafa de Brahma intocada sobre a mesa, ao lado da caixa de madeira. Seus olhos, por trás das lentes dos óculos, não se desgrudavam daquela madeira simples. Suas mãos estavam limpas, nervosas, ansiosas. A mente analítica dele já havia processado o alívio e partido direto para o próximo passo: o conteúdo.

Não aguentou mais. Colocou a garrafa de lado com um movimento preciso e aproximou-se da mesa.

— Lucas — disse, sua voz cortando o burburinho suave da comemoração. Todos se calaram, voltando-se para ele. — Você está bem? Ninguém te viu?

— Tudo limpo, Carlos. Vinte minutos, como planejado.

Carlos acenou, quase sem ouvir a resposta completa. Seu foco já estava na caixa. — E… é isso? — Ele apontou.

Lucas engoliu um gole de cerveja e assentiu. — É. Terceira caixa.

Sem cerimônia, mas com uma reverência tácita ao perigo que representava, Carlos afastou as outras caixas vazias. Com as pontas dos dedos, como se tocasse em algo quente, removeu as tiras de madeira soltas e a palha seca do topo da caixa. Lá no fundo, envolta em sombras, estava a pasta de papel pardo, ainda amarrada com seu barbante encerado.

Um silêncio diferente, carregado de antecipação intelectual e um frio na espinha, tomou conta da sala. As garrafas foram pousadas. A comemoração instantânea havia cumprido seu papel; agora, era hora do trabalho real.

Carlos, com movimentos quase cirúrgicos, tirou a pasta da caixa e a colocou sob a luz crua da lâmpada pendente no centro da sala. Todos se aglomeraram em volta da mesa, formando um círculo íntimo. O cheiro do papel antigo, do óleo de peroba e do charuto, agora misturava-se ao odor de cerveja e suor na redação.

Com cuidado meticuloso, Carlos desfez o nó do barbante. A boca da pasta se abriu, revelando uma pilha densa de documentos amarelados, alguns manuscritos, outros datilografados em máquinas antigas, outros ainda carimbados com selos oficiais desbotados.

O primeiro documento, o que Lucas tinha visto, estava no topo. O carimbo e o título falavam de loteamentos e uma fazenda em Minas Gerais. Mas Carlos, com o olhar de um historiador caçador, não se prendeu a ele. Passou os dedos pelas páginas, sentindo a textura, vendo flashes de outros nomes, outras datas, assinaturas ilegíveis.

— Esta é só a capa — ele murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. — O que importa está nas entrelinhas, nas anotações de margem, nos recibos… nos nomes que não deveriam estar juntos.

Ele ergueu os olhos, e por trás dos óculos, o brilho era de pura, intensa concentração. A cerveja estava esquecida. A festa acabara.

A caça aos segredos do Coronel Sabará entrava em sua fase mais crítica: a decifração.

— Laura, ajude aqui a separar isso. Ana, organize folhas de papel em branco para anotações. Paulo, você conhece a grafia do início do século, me ajude com estas cursivas. Lucas… descanse. Você já fez a parte dele. Agora é com a gente.

A redação do Correio Matutino transformou-se, naquele instante, em um centro de investigação de crimes históricos. O som de garrafas sendo levantadas foi substituído pelo sussurro de páginas sendo viradas com cuidado, pelo som da máquina de escrever sendo preparada, e pelo silêncio tenso de mentes trabalhando para desvendar, linha por linha, o arquivo das sombras que agora, finalmente, estava sob sua luz.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XL)

A luz da manhã não entrava suave; entrava em lâminas afiadas pelas frestas das persianas quebradas, cortando a penumbra do sobrado e iluminando redomas de poeira ainda pairante. O sono da noite anterior havia sido raso, agitado pelos roteiros mentais que cada um ensaiava, revirava e ajustava no escuro. O medo era um cobertor pesado, mas a excitação era um café forte ainda por vir – e ele não tardaria.

O som da porta rangendo anunciou Márcio, um vulto sólido e confiável contra a claridade da rua. Ele trazia a provisão matinal num saco de papel: pães ainda quentes, um naco generoso de mortadela envolto em papel manteiga, e, o tesouro maior, um pacote amarrado com barbante contendo pó de café. O aroma terroso e vigoroso se espalhou como uma primeira promessa de ânimo.

— O dia vem aí, camaradas — anunciou Márcio, sua voz grave um bálsamo de normalidade. — O estômago forte é o primeiro passo.

Enquanto se formava a fila paciente e sonolenta diante do único banheiro – um ritual de convivência quase doméstico –, Alice pegou os ingredientes com a autoridade de uma general. Em poucos minutos, o sibilo da água fervendo na chaleira e o som da mortadela sendo fatiada fina, quase translúcida, sobre a tábua, criaram a trilha sonora daquela manhã decisiva.

Madame Satã, imponente mesmo em roupas simples, aproximou-se de Márcio. Seus olhos estavam sérios.

— Márcio, querido, preciso de um favor de pernas. Vá até o Nelsinho no Cais do Porto. Diga que a velha amiga precisa do caminhão outra vez. Que o pacote é frágil e precisa de transporte discreto. Ele entenderá.

Márcio anuiu, guardando o recado como se fosse uma ordem de batalha – o que, de certa forma, era.

Enquanto isso, o café coado no pano grosso começou a escorrer, seu perfume amargo e convidativo dominando por completo o ar. Alice serviu numas velhas canecas de flandres, cada uma acompanhada de um pão aberto com fatias sobrepostas de mortadela. Era uma refeição simples, mas honesta, que solidificava o chão sob os pés.

Sentados em croda no chão, apoiados nas mesas da redação ou no parapeito da janela, o grupo comeu em silêncio por um momento, saboreando o café forte que queimava a língua e afastava os últimos véus do sono. O alimento fazia mais do que nutrir; era um ritual de união, um lembrete tácito do que estavam defendendo: a simplicidade, a comunhão, o direito a um café da manhã em paz.

Foi Paulo quem quebrou o silêncio, sua voz mais calma agora, integrada ao grupo. — O Lucas entra como distribuidor hoje à tarde. O horário de entrega no clube é sempre no fim do dia, quando os oficiais começam a chegar para os seus encontros. É o momento de mais movimento, mais confusão. Bom para passar despercebido.

Lucas, mastigando metodicamente, assentiu. Alice avisou: O velho do porto, o Seu Martinho, já está avisado.Eu vou com o Lucas para o primeiro contato, para dar o aval. Depois, ele segue só com Nelsinho.

Carlos colocou a caneca no chão, os óculos refletindo a faixa de sol. — Enquanto isso, nós finalizamos a montagem do dossiê. Já temos a narrativa: a linhagem da crueldade, do bebê afogado e da Isabela no sanatório, a figura do avô do Sabará. Precisamos conectar isso diretamente ao coronel. Os arquivos dele no clube tem que ter essa peça.

Alice, lavando as canecas, virou-se. — Então está traçado. Eu e o Lucas saímos depois do almoço para falar com o Seu Geraldo. O resto de vocês tranca a porta aqui e vira essas máquinas. O dia é de trabalho. E de cuidado.

Madame Satã, observando a cena do canto da sala onde seu roupão parecia um manto, acrescentou, sua voz um contralto suave e carregado de significado: — A cidade está cheia de olhos hoje. Sinto no ar. Andem com as sombras de vocês, não com seus corpos. Lembrem-se: Bárbara não os escolheu por acaso. Ela escolheu sobreviventes.

As palavras pairaram sobre o grupo, misturando-se ao último vapor do café. O plano estava repassado, não mais apenas na memória, mas no ar que respiravam, no sabor da mortadela e do pão, no peso das tarefas de cada um. O medo ainda estava lá, sim, mas agora tinha um endereço e um horário: o Clube Militar, ao entardecer. E a excitação havia se transformado em algo mais sólido: determinação.

O sol subia, cortando cada vez mais o sobrado. Era hora de trabalhar. A redação do Correio Matutino, pela primeira vez em anos, tinha uma verdadeira deadline a cumprir.


O ar dentro da loja do Seu Martinho era denso, um coquetel rançoso de vapor de cachaça barata, cerveja derramada há muito seca e o suor de décadas impregnado nas tábuas do piso e no couro do balcão. Era o cheiro de um lugar que nunca dormia de verdade, apenas cochilava entre uma entrega e outra. Pilhas de engradados de Brahma formavam muralhas instáveis, e garrafas de aguardente reluziam com um brilho duvidoso nas prateleiras empoeiradas.

Alice entrou primeiro, varrendo a penumbra com o olhar afiado. Lucas a seguiu, a porta com sino tilintando de forma inadequada atrás deles.

— Martinho! Tá contando os lucros ou os espinhos na consciência? — chamou Alice, sua voz familiar cortando o mofo do ar.

De trás de uma fortaleza de engradados vazios surgiu o homem. Seu Martinho usava um boné verde-musgo, desbotado pelo tempo, com uma pequena estrela bordada de forma desleixada no front — uma lembrança de alguma causa antiga, talvez. Seu rosto era um mapa de rugas profundas, e entre os lábios firmes, um palito de dentes dançava de um lado para o outro. Seus olhos, dois pedaços de céu azul sob a aba do boné, pousaram primeiro em Alice com um misto de afeição e desconfiança, depois examinaram Lucas com a lentidão calculada de um ourives avaliando uma pedra falsa.

— Alice. Quando você aparece, é porque o caldo tá pra entornar, e você quer que eu segure a panela — resmungou, a voz um rosnado baixo. O palito parou por um instante. — E trouxe reforço.

— Reforço é coisa de quem vai pra briga, Martinho. A gente só vai fazer uma entrega. Este é o Lucas. — Alice fez um gesto com a cabeça.

Lucas manteve o olhar firme, mas respeitoso, sob o escrutínio do velho.

— Entregas eu faço sozinho há mais tempo que você tem de vida, moça — disse Martinho, os braços cruzados sobre um avental manchado. — Não preciso de garoto bonito pra carregar caixa.

— Não é só carregar caixa — interveio Lucas, falando antes que Alice pudesse. Sua voz era clara, sem desafio, mas carregada de uma urgência contida. — É a entrega de quinta-feira no Clube. E preciso de vinte minutos dentro. Sozinho.

O palito de dentes parou completamente na boca de Martinho. Seus olhos se estreitaram até quase desaparecerem. — Dentro? Dentro de onde, rapaz? O porão? A cozinha?

— No segundo pavimento. No escritório do velho Sabará.

Um silêncio pesado caiu sobre a loja, abafado apenas pelo zumbido distante de uma mosca. O rosto de Martinho não se alterou, mas uma tensão nova percorreu seus ombros largos. Ele cuspiu o palito no chão de tábuas encardidas.

— Você é louco. Ou é suicida. Aquele andar é só pros de farda alta e suas… reuniões. Nem os garçons sobem lá sem ser chamado.

— Por isso preciso da sua cobertura — insistiu Lucas, mantendo a calma. — O senhor faz a entrega normal no bar e no depósito do térreo. Leva seu tempo. Conversa, reclama do preço, qualquer coisa. Me dá vinte minutos. Eu subo pela escada de serviço que vi nos seus esquemas antigos, a que você comentou uma vez com a Dona Alice.

Alice confirmou com um leve aceno. Ela havia fornecido a Lucas todos os detalhes que sabia, frutos de conversas de décadas.

Martinho olhou para Alice, uma interrogação muda. Ela encarou de volta. — É importante, Martinho. É sobre o que a gente sempre resmungou nos cantos, mas nunca pôde provar. É o fio que puxa o novelo todo.

O velho ficou mastigando o ar agora, o queixo para frente, os dedos tamborilando no balcão sujo. O cheiro azedo da loja parecia se intensificar.

— Vinte minutos — repetiu ele, como se provasse o sabor amargo das palavras. — E se em dez você for pego? E se em cinco um segurança te encontra no corredor errado?

— Então eu sou apenas o ajudante perdido, assustado, que fugiu. O senhor não sabe de nada. A entrega é a única verdade. — Lucas tinha o roteiro preparado. — Mas eles não vão me pegar. Não se eu tiver o caminho certo.

Martinho suspirou, um som profundo que parecia vir das fundações da loja. Pegou outro palito de uma caixa no balcão e o colocou entre os dentes.

— A entrega é quinta, fim da tarde. Chego aqui com a van às quatro em ponto. Você vem vestido pra trabalhar, não pra passeio. — Seu olhar percorreu as roupas de Lucas com desdém. — Botas, calça grossa, camisa escura. Você vai carregar as pesadas. Eu levo as chaves e lido com o sargento da portaria. Você fica comigo até a despensa. Depois… some. Vinte minutos. No vigésimo primeiro, eu começo a fazer um barulho do cão para ir embora, com ou sem você.

— Comigo — afirmou Lucas.

— O caminhão de fuga — lembrou Alice, sua voz baixa mas firme. — Estará na Rua Santa Luzia perto da igreja, motorista ligado. Se algo feder, é o plano B.

— Tudo com você é plano B, Alice — disse Martinho, mas sem azedume, apenas um cansaço antigo. — Tá certo. Quinta-feira. Quatro horas. Vinte minutos. E meu nome não aparece em nada. Isso aqui — ele bateu com o nó dos dedos no boné com a estrela — já sobreviveu a muita tempestade. Não quero que afunde por causa de um novato idealista.

— Não é idealismo, Seu Martinho — disse Lucas ajeitando os óculos, pela primeira vez com um lampejo de algo mais pessoal no olhar. — É justiça. E sobrevivência.

O velho distribuidor o observou por um longo momento, o palito movendo-se lentamente. Por fim, deu um aceno quase imperceptível.

— Justiça. Sobrevivência. São bons motivos. Agora, tirem o cheiro de conspiração da minha loja antes que espante a clientela. E você, rapaz… na quinta, não atrase.

Alice colocou uma mão no ombro de Lucas, um gesto de missão cumprida. Ao saírem, o tilintar do sino da porta soou como um sinal de partida. O relógio, agora, marcava o tempo até quinta-feira, e os vinte minutos dentro do vespeiro que poderiam mudar tudo — ou acabar com todos. Seu Martinho ficou para trás, mastigando seu palito e o peso daquela promessa, seu boné verde uma bandeira desbotada em meio às garrafas silenciosas.

O Arquivo das Sombras: 1968 (Parte XLIX)

Os Anos de Chumbo desceram sobre o Brasil como uma bigorna. O AI-5 rasgou a Constituição, e com ela, qualquer véu de legalidade. Os porões d...