O maço de documentos antigos, agora espalhado com ordem meticulosa sobre a grande mesa, era mais do que papel; era um esqueleto. Cada contrato, cada recibo de compra de terra, cada carta, cada registro de batismo falsificado, cada transação bancária obscura — eram vértebras que, quando unidas, formavam a coluna de uma verdade monstruosa. Eles tinham todas as linhas que atavam as pontas soltas do dossiê coletado: a fazenda em Minas não era só um investimento; era parte do espólio da família que ascendera ao poder apagando seus rastros. O nome do avô do Coronel Sabará aparecia não como um herói, mas como um especulador cruel, ele abandonou a mãe de seu filho e entregou seu filho recém nascido para a amante, registrando como mãe da criança. Pior: os documentos ligavam essa fortaleza inicial à expropriação de terras de libertos, ao financiamento velado do sanatório de Barbacena (para onde "problemas" como Isabela eram enviados), e a acordos sombrios com a velha guarda política que pavimentaram a ascensão do neto, o Coronel, dentro da estrutura militar.
A história estava toda ali, escrita em tinta desbotada e em códigos de poder.
"A SANGUE E CAFÉ: A VERDADEIRA HISTÓRIA DA FAMÍLIA SABARÁ, DE BARBACENA AO DOI-CODI"
Enquanto Carlos e Ana, com atenção e cuidado, continuavam a separar e analisar cada evidência, cruzando dados com o caderno de Bárbara, Laura e Lucas se sentaram diante da velha Underwood. Eles eram os narradores, os arquitetos da versão pública daquela verdade. Rapidamente, dividindo parágrafos e passando a folha de um para o outro, começaram a tecer a narrativa. O texto tinha que ser factual, seco, devastador em sua lógica, um tijolo de jornalismo investigativo que pudesse derrubar portas. Os elementos sobrenaturais — o espectro de Bárbara, a bruxa, o caderno como arma espiritual — foram obviamente deixados de fora. A história que nascia daquelas teclas rangentes era de corrupção fundiária, tráfico de influência, falsificação de documentos, apropriação de heranças alheias e a construção de uma dinastia de poder sobre alicerces podres. Era a biografia não oficial do Coronel Sabará e de sua sombra alongada sobre a história do Brasil.
O ritmo era frenético, alimentado por café amargo e a urgência do amanhecer. O tac-tac-tac da máquina era o tambor daquela guerra particular.
Às cinco da madrugada, quando a primeira luz ainda era apenas uma promessa cinzenta atrás dos prédios da Lapa, um calhamaço de folhas de papel ofício, cheias de texto denso e correções à caneta, estava pronto. Era um rascunho, sim, mas um rascunho completo. A verdade, pela primeira vez, tinha uma forma narrativa palpável.
Exausta mas com os olhos ardendo, Laura empilhou as folhas, alinhou-as com um golpe seco na mesa e entregou-as a Madame Satã, que havia observado todo o processo do seu trono improvisado de cadeira de balcão, envolta em um roupão surrado como um manto de julgamento silencioso.
Madame Satã pegou o peso das folhas em suas mãos, sentindo a gravidade das palavras. Seus olhos, profundos e cansados, percorreram a primeira página, mas não se fixaram. Em vez disso, ela estendeu o maço para Alice Cavalo de Pau, que fumava um cigarro na janela, observando a rua.
— Lê aí pra mim, Cavalo de Pau — pediu Madame Satã, sua voz um contralto suave na quietude da madrugada. — Esses olhos velhos nunca aprenderam a ler. E quero ouvir a história.
Alice esmagou o cigarro no peitoril, limpou as mãos no avental e, com um ar solene que substituía sua habitual irreverência, pegou as folhas. Ajustou os óculos na ponta do nariz e se posicionou sob a luz direta da lâmpada.
Um silêncio absoluto tomou conta da redação. O tique-taque do relógio de parede soou como um metrônomo. Todos se voltaram para ela: os jovens pesquisadores com os rostos marcados pelo cansaço e pela expectativa, Márcio imóvel como uma estátua, Seu Martinho descansando num canto com os olhos semicerrados, mas atentos.
Alice começou a ler. Sua voz, normalmente áspera e cheia de bordões da Lapa, adquiriu uma cadência diferente, clara, deliberada, quase teatral. Ela lia o texto seco de Laura e Lucas, mas algo acontecia.
"A origem da fortuna e da influência do Coronel A. Sabará remonta não a feitos militares ou empreendimentos lícitos, mas a uma rede de apropriação ilícita iniciada por seu avô , o fazendeiro e especulador Alcebíades Sabará..."
À medida que as palavras fluíam, descrevendo transações obscuras, nomes de pessoas esquecidas, terras roubadas, crianças tratadas como mercadoria, o rosto de Madame Satã se transformava. Ela não olhava para Alice, nem para o papel. Seu olhar estava fixo em um ponto no vazio, no centro da sala, mas era um olhar que via. Seus olhos escuros, normalmente carregados de uma ironia profunda, agora estavam sérios, distantes, refletindo uma dor antiga e uma compreensão aguda.
Era como se ela não estivesse ouvindo uma leitura, mas assistindo a um filme. As palavras de Alice conjuravam as imagens para ela. Talvez ela visse os campos de Minas sendo cercados, o italiano assassinado, a senzala silenciosa após o afogamento do bebê, a figura sombria de Bárbara dos Prazeres negociando destinos, o sanatório com suas grades, o jovem oficial Sabará estudando em mapas as mesmas terras que seu avô usurpara.
Seu rosto era uma tela onde as emoções passavam sutis, mas profundas: um ligeiro tremor no canto da boca ao ouvir sobre a Roda, um estreitar dos olhos ao mencionar o sanatório, uma quase imperceptível inclinação de cabeça quando a narrativa chegava ao coronel moderno e seus métodos de tortura cruéis, ecoando tão familiarmente os do avô.
Alice lia, página após página, e a sala ouvia, presa não apenas pelo conteúdo, mas pelo ritual. A cafetina da Lapa, lendo a sentença de um dos homens mais poderosos do regime. A sobrevivente narrando os crimes dos que sempre sobreviveram impunes.
Quando a última palavra foi pronunciada — um parágrafo contundente ligando a corrupção do passado à repressão política do presente —, um silêncio ainda mais profundo se instalou. O relógio parecia ter parado.
Madame Satã piscou lentamente, como se voltando de uma longa viagem. Seu olhar percorreu cada rosto jovem na sala, depois fixou-se no calhamaço de papéis.
— Está bom — disse, finalmente, sua voz um pouco mais rouca. — Está muito bom. É a verdade. Crua, feia, como deve ser. — Ela fez uma pausa, e seus lábios se curvaram em algo que não era um sorriso, mas um reconhecimento. — Agora… como fazemos essa verdade doer neles?
O impacto do texto lido por Alice ainda ecoava na redação, uma verdade pesada e poderosa pairando no ar enfumaçado da madrugada. O silêncio que se seguiu ao veredicto de Madame Satã era de exaustão solene, mas também de uma ponta de triunfo. Eles tinham a arma. Agora, precisavam do gatilho.
Foi nesse momento de epifania coletiva que a porta do sobrado se abriu de rompante, batendo contra a parede. A figura que entrou, ofegante e desarrumada, era um choque de realidade brutal.
Era Nelsinho, mas não o Nelsinho calado e controlado do volante. Seu rosto estava pálido sob a sujeira da estrada, os olhos arregalados. Ele respirava com dificuldade, como se tivesse corrido por quarteirões.
Todos se viraram de uma só vez, a fadiga instantaneamente varrida por um novo surto de adrenalina. O olhar de medo e urgência de Nelsinho era contagioso.
— A Tonha… — ele conseguiu dizer, engasgando com o ar. — Ela ligou. No orelhão, sabe? Direto pro bar do Zé… não tinha como avisar de outro jeito…
Ele se apoiou no batente da porta, tentando recuperar o fôlego. A sala ficou em tensão absoluta. Tonha. O nome era conhecido. A velha solitária que vivia no remanescente da antiga fazenda do avô Sabará, em Barbacena. Ela era seus "olhos e ouvidos" no lugar de origem, uma amiga de confiança que mantinha uma linha precária de comunicação.
— O Zé Lopes… — Nelsinho continuou, a voz trêmula. — Teve que abandonar a estação. Depois que a gente foi embora, depois da transmissão… conseguiram localizar o sinal. Rastrearam até a casa dele.
Um choque gelado percorreu a espinha de todos. Zé Lopes. O operador de rádio amador, o homem do sertão que, com sua coragem solitária, transmitira as primeiras peças do dossiê para o mundo exterior, arriscando tudo. Seu sinal, sua localização, agora estava comprometida. Isso significava que os homens do Coronel Sabará, do DOI-CODI, estavam perseguindo o rastro eletrônico. Eles estavam se aproximando da verdade por outro flanco, e eram muito mais rápidos e violentos.
— Ele tá vindo para cá — Nelsinho finalmente completou, o olhar desesperado varrendo os rostos à sua frente. — Conseguiu fugir pelo mato, Tonha ajudou. Ele vai tentar chegar. Tá na estrada. Posso trazer?
A pergunta ecoou na sala silenciosa. Trazer Zé Lopes para o sobrado do Correio Matutino significava expor o coração da operação, o local onde o dossiê completo estava sendo montado. Mas deixá-lo à mercê na rua, perseguido, era uma sentença de morte. E ele era uma testemunha viva, um elo crucial.
— Temos que protegê-lo — disse Paulo, sua voz firme, a descoberta da própria heranha dando-lhe uma coragem nova. — Ele fez a parte dele. Não podemos abandonar.
Madame Satã ergueu a mão, um gesto que impôs silêncio. Seus olhos, que há instantes viam o filme do passado, agora estavam absolutamente focados no perigo do presente.
— Nelsinho — ela disse, a voz clara e comandante, cortando a ansiedade. — Você sabe onde ele vai tentar descer? Ponto de ônibus? Rodoviária?
— Disse que viria de carona, caminhão de mudança. Combinou de descer no posto da Dutra, perto de São João de Meriti. Se conseguir.
— Então você vai — ordenou Madame Satã. — Mas não traga ele aqui. É muito perigoso. Leve-o para o sobrado da Rua Maranguape… — ela murmurou, ponderando. A casa de Alice era um labirinto de cômodos alugados e cantos esquecidos, conhecido apenas pelos de dentro. Um porão discreto. Menos exposto que aqui, e mais controlável. — É melhor. Mais perto, e Alice conhece cada roedor daquele lugar.
Alice concordou com um aceno decisivo. — O porão tem uma entrada pela cozinha, atrás do fogão a lenha. Lá ele fica. Tem uma cama de campanha velha e dá para passar comida pela janela gradeada do nível da rua. Ninguém procura lá. Depois você volta e nos avisa.
Ela olhou para Márcio e Lucas. — Vocês dois vão com ele. Por segurança. Levem algo para ele comer, beber, e um casaco. Ele deve estar assustado e exausto.
Alice, ainda com as folhas do dossiê na mão, as apertou contra o peito. — E a gente? O que fazemos com isso? — ela perguntou, olhando para o calhamaço de papel.
Carlos trocou um olhar com Laura. A linha do tempo tinha se acelerado violentamente.
— Tiramos cópias. Agora. Todas as que pudermos — disse Carlos, sua voz urgente. — O mimeógrafo, à mão, o que for. Separamos o original, as evidências físicas, e as cópias. Temos que dispersar isso. Se eles estão chegando perto do Zé Lopes, podem chegar perto de nós a qualquer momento.
A redação, que há minutos era um santuário de descoberta triunfante, transformou-se num quartel-general sob cerco iminente. O triunfo depletivo de ter a história escrita foi substituído pela corrida contra o relógio da repressão. O passado estava documentado. Agora, o presente exigia que eles sobrevivessem para contá-lo.
— E nós aqui — continuou Carlos, olhando para a mesa coberta de documentos e para o mimeógrafo enferrujado — temos que acelerar. Se o rastreamento do sinal do Zé Lopes os levou até Barbacena, e eles estão ativos o suficiente para forçá-lo a fugir, a pressão está aumentando. Podem estar cruzando dados, procurando conexões com o Rio. Nosso tempo pode ser menor do que pensamos.
A urgência agora tinha um gosto metálico, de medo real. A redação se transformou em uma linha de montagem frenética e silenciosa.
Ana e Laura assumiram o mimeógrafo. Enquanto Ana alimentava as folhas mestres do dossiê (cuidadosamente datilografadas em estêncil), Laura girava a manivela com força, cada rotação produzindo uma cópia fantasmagórica, mas legível, da denúncia. O cheiro ácido do álcool de mimeógrafo se espalhou, misturando-se ao café e à poeira.
Paulo e Carlos embalavam o maço original de documentos antigos e as anotações de pesquisa em um pacote de papel pardo à prova d'água que Márcio havia providenciado. Era a evidência primária, a arma que não podia se perder.
Seu Martinho, percebendo que a parte dele na história ainda não tinha terminado, se levantou. — Essa papelada toda copiada… onde vai ficar? Não pode ser tudo no mesmo lugar.
Madame Satã tinha a resposta. — Separamos. Uma cópia fica aqui, escondida na própria redação. Outra vai comigo, para um lugar que nem o diabo encontra. A terceira… — Ela olhou para Martinho. — Você ainda tem aquele vão falso atrás da prateleira dos licores importados?
Um sorriso quase imperceptível tocou os lábios do velho. — Tenho. Lá guardei coisas da ditadura do Vargas. Dá pro gasto.
— Perfeito. Uma cópia vai para sua loja. — Ela então olhou para Alice. — E o Zé Lopes, quando estiver seguro no porão, recebe a quarta cópia. Um homem perseguido que carrega a prova é um homem perigoso… para eles. Ele saberá o que fazer se tudo mais falhar.
Era um plano de dispersão. A verdade não ficaria em um só cesto.
Enquanto o trabalho de cópia e embalagem continuava a todo vapor, Lucas, Márcio e Nelsinho se preparavam para sair. Lucas verificou se não levava nada que o ligasse ao sobrado ou ao grupo. Márcio pegou uma sacola com pão, queijo, uma garrafa d'água e um casaco antigo, mas quente, para Zé Lopes.
— Lembrem-se — advertiu Carlos, enquanto eles se encaminhavam para a porta. — Se houver qualquer sinal de vigilância, qualquer coisa estranha, abortem. Voltem por rotas diferentes. A segurança do Zé Lopes é vital, mas a descoberta deste lugar seria catastrófica.
Lucas assentiu, seu rosto fechado na expressão de alerta que já era familiar. — Entendido. Rua Maranguape, beco dos fundos. Nada de heroísmo.
Eles saíram, engolidos pela penumbra azulada que precede o amanhecer na Lapa. Dentro do sobrado do Correio Matutino, o ritmo continuava implacável. O tum-tum-tum do mimeógrafo agora era o som da resistência, imprimindo, página após página, a sentença histórica do Coronel Sabará. Cada cópia era um fio de um paraquedas que, eles esperavam, faria a verdade aterrissar em segurança, não importa o que acontecesse com os mensageiros.
Enquanto Alice preparava os pães com manteiga e uma garrafa térmica de café, ela olhou para Madame Satã. — E a gente, Satã? Depois de distribuir essas coisas toda?
Madame Satã acendeu um cigarro longo, a fumaça formando um véu diante de seu rosto impenetrável. — A gente, Cavalo de Pau, espera. E vigia. A história saiu da gaveta. Agora vamos ver se o mundo está pronto para lê-la.